quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O VAMPIRO DA NOITE (1958), de TERENCE FISCHER - 12.09.2012

Jonathan Harker, aparentemente um bibliotecário, vai ao castelo de Drácula (Christopher Lee), em Klausenberg (ALE) contratado para organizar a biblioteca do vampiro.
Logo ele revela sua verdadeira intenção, ao escrever em seu diário. Ele está ali para, em verdade, acabar com o reinado de terror de Drácula - o vampirismo é matéria de seus estudos. 
Quase imediatamente, no entanto, ele é atraído por uma mulher-vampiro que, de início lhe pede ajuda para poder deixar a casa onde é mantida cativa. Mas ela, dissimulada, em um momento de distração de Harker, o morde. 
Jonathan Harker, imaginando estar em processo de se tornar um vampiro, tenta matar os mortos-vivos, logrando parcial sucesso, eliminando a mulher (que após ter sido estaqueada em seu caixão deixa de ser uma bela jovem e vira uma mulher velha) mas não consegue exterminar Drácula
Corte abrupto.
Na próxima cena, já vemos Van Helsing (Peter Cushing) chegando à aldeia próxima ao castelo do vampiro, ali chamado por uma carta que recebera de Harker, e numa taberna, se informa de onde seria o castelo de Drácula e recebe o diário de Jonathan, tomando conhecimento do que acontecera.
Ao chegar defronte ao castelo, Van Helsing vê passar uma carruagem com um caixão. Entrando na obra, não encontra mais o conde Drácula, apenas Harker, em seu esquife, transformado em vampiro, a quem mata. 
Isto feito, retorna para a cidade de Karlstadt e dá a notícia da morte de Harker à família Holmwood (o casal Arthur e Mina, além da irmã de Artur - Lucy - ex-noiva de Jonathan), sem explicar contudo o que houve, como ou porque ele morreu. 

Em certo momento, Lucy começa, sem explicação, a adoecer. O espectador já sabe que ela está sendo vampirizada por Dracula, mas os médicos e a família de nada desconfiam até que, uns dez dias depois, Van Helsing é chamado e descobre que há marcas no pescoço de Lucy. Ele dá ordem expressas para que a casa seja fechada e alho guarde o quarto da "enferma", mas uma empregada desavisada contraria as ordens e, na manhã seguinte, Lucy está "morta". 
Nesse momento, Van Helsing entrega a Arthur o diário de Jonathan onde estão relatadas as desventuras deste. Arthur passa a acreditar em Van Helsing, e descobre as causas da morte de Jonathan e de Lucy. 
Após uma menina ver Lucy, morta-viva, andando no pátio, Van Helsing e Artur vão investigar, e a vêem. Quando esta se refugia no jazigo familiar, a matam com uma estaca no peito. 
Agora lhes resta descobrir onde Drácula se encontra escondido, para exterminá-lo. Van Helsing tem a ideia de retornar a Klausenberg e descobrir para qual endereço em Karlstadt o caixão avistado antes, em frente ao castelo, foi despachado.
Enquanto viajam, Drácula atrai a esposa de Artur (Mina) para onde está escondido, uma casa funerária - que lá à distância os homens descobrem ser o esconderijo do Conde - e a vampiriza também. 
Quando retornam a Karlstad, não encontram Mina em casa. Esta logo chega nada falando sobre ter sido atraída por Drácula. Quando estes dizem que vão sair no encalço do vampiro, entregam um crucifixo a Mina, que desmaia. É feita uma transfusão de sangue para salvá-la temporariamente, até o momento em que possam matar o Conde. 
Eles vão até a funerária onde o caixão do vampiro estaria, mas não o encontram. Numa noite de vigília, usando Mina como atrativo para que Drácula venha ao encontro deles e que possam caçá-lo, nada vêem, mas mesmo assim, Drácula esteve dentro da casa para chupar o sangue de Mina. 
Intrigados, apenas em razão de uma confissão de uma empregada, de que Mina a teria proibido de ir à adega, Van Helsing conclui que o vampiro está na própria casa de Arthur e Mina - por esta trazida naquela noite em que os homens viajavam - e o encontra, mas não consegue matá-lo. O vampiro pega Mina em seus braços e com ela foge, em direção ao seu castelo, seu último refúgio seguro. 
Arthur e Van Helsing seguem em seu encalço, onde, finalmente, conseguem matá-lo ao nascer do dia, com a luz do sol fulminando o vampiro. Com a morte dele, Mina volta à sua condição humana. 

Nota IMDB - 7.5. Vale menos. Acho que o grande mérito do filme é um roteiro enxuto, direto, quase sem falhas falhas, entretanto com uma história menos detalhada, por exemplo, que o Drácula dirigido por Coppola (este para mim um filme melhor, especialmente no início, apenas com o problema de uma péssima interpretação de Keanu Reeves). Trata-se de um filme de 1958, com efeitos especiais e maquiagem simplórios, e me parece com algumas adaptações que afastam o filme do livro de Bram Stoker, o que é um pequeno problema. Mas a imagem clássica do drácula empertigado, de roupas pretas, capa, a caracterização de Christopher Lee, serão sempre impressionantes. 
O filme com Bela Lugosi, de Tod Browning - assim como o de Coppola - me parecem acima deste que acabei de ver agora.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

UMA NOITE EM 67 (2010), de RICARDO CALIL e RENATO TERRA - 07.09.2012

Documentário sobre o festival da canção de 1967, na TV Record, quando os festivais eram a máxima expressão da cultura musical, e talvez, mesmo da cultura nacional naquela época.
Gostei demais
As imagens de arquivo são muito boas, pelo conteúdo. A qualidade do vídeo, evidentemente, é ruim; são as imagens tremidas e granuladas da televisão da década de 60, mas pode-se ver ali, num corte bastante interessante dos diretores - apresentar apenas as cinco primeiras colocadas (Maria, Carnaval e Cinzas; Alegria, Alegria; Roda Viva; Domingo no Parque e a vencedora Ponteio, da qual nem gosto tanto) e seus respectivos intérpretes, além de Sérgio Ricardo, com Beto Bom de Bola, vaiado incessantemente, que se deu afinal por vencido, quebrou o violão e o jogou sobre a platéia - um bom resumo da importância dos Festivais, da estatura dos artistas de então, da música e da sociedade brasileira.
Havia discussões sérias sobre o que ocorria musicalmente, torcidas organizadas a favor de um ou de outro artista, preconceitos contra a guitarra elétrica favor de uma MPB pura. Houve inclusive, naquela época, uma passeata contra a guitarra elétrica, em outro momento. Discutia-se sobre o esgotamento da bossa nova, a ascensão do rock representada então pela jovem guarda, quem eram os progressistas e quem era o conservador bom-moço (Chico, por óbvio). Enfim, discutia-se algo.
Entrevistas com Paulinho Machado de Carvalho, Zuza Homem de Mello, Chico Anysio, Nelson Motta (que menciona que na época não havia novelas, e os musicais eram então a principal forma de entretenimento televisivo, sua principal atração), Solano Ribeiro (organizador do Festival disse que ele, na época, não era nada mais do que um programa de televisão - AO VIVO, e que somente com o tempo a importância dele aumentou), Sérgio Cabral, afinal críticos, organizadores ou mesmo jurados do festival, além de vídeos da época com os artistas que disputavam o certame e entrevistas atuais destes intérpretes quarenta anos depois do ocorrido (Gil, Caetano, Roberto, Chico, Edu Lobo e Sérgio Ricardo) revivendo o quê houve, a analisando a conjuntura de então, enriquecem sobremaneira o filme. 
Ouvir Roberto Carlos, Caetano, Gil, todos eles com 22 ou 23 anos, se expressando muito bem, falando sobre suas (ótimas) músicas, num português muito bom, com idéias claras, faz um bem danado. Uma juventude então esclarecida e porreta, autores de músicas espetaculares e com conteúdo para, nas entrevistas, exporem seus pontos de vista com clareza e inteligência. 
E não há quem não se emocione ouvindo "Alegria, Alegria", "Roda Viva" ou "Domingo no Parque", em suas primeiras apresentações ao público, arrebatadoras.

Nota IMDB: 7.6. Para mim, vale até mais. Um documentário muito bom sobre a música brasileira, e até sobre o tempo que vivíamos no Brasil. Ter de aguentar "eu quero tchu", ou falar de dodge ram ou de camaro amarelo em músicas, como hoje acontece, fica ainda mais difícil depois de assistir a "Uma Noite em 67".

O DITADOR (2012), de LARRY CHARLES - 06.09.2012

Sacha Baron Cohen é o Ditador Aladeen, do imaginário país de Waddiah, um sanguinário déspota de visual inspirado em Kaddafi, e que toma decisões obviamente aleatórias e baseadas apenas em sua vontade - como é de praxe.
Seu objetivo maior é desenvolver armas nucleares - como fins bélicos e para atacar Israel, por óbvio.  Há uma boa cena de um discurso de Aladeen dizendo que os estudos nucleares não têm fins militares, apenas uso médico e para geração de energia, e que nunca atacará Israel, rindo no meio de suas falas, e sequer conseguindo terminar a frase a respeito da não agressão a Israel. 
Quando os planos nucleares de Aladeen tornam-se preocupantes para a comunidade internacional, ele é chamado a prestar contas perante a ONU, tendo de ir a Nova York. 
Tamir (Ben Kingsley), o tio do ditador planeja um golpe contra seu sobrinho. Matar o Admiral-General Aladeen, substituindo-o por um dos sósias do ditador (sempre utilizados para evitar atentados contra a vida do autocrata). Este substituto firmaria um pacto democratizando Waddiah e também assegurando que o petróleo do país poderia ser negociado com o exterior, não sem, é claro, garantir para si mesmo 30% dos lucros do negócio, loteando as reservas de óleo em favor de 4 grandes empresas internacionais. 
O assassinato não dá certo por erro do carrasco, mas a barba de Aladeen é cortada, de modo que ele não pode mais ser reconhecido, ficando impossibilitado de ir à  Conferência da ONU. 
No discurso do seu sósia perante a Assembléia, este promete, um ou dois dias depois, assinar uma nova constituição - democrática - para Waddiah.
Nesse intervalo, em frente à sede da ONU, Zoey (Anna Farris) confunde Aladeen com um manifestante contra a tirania de Waddiah, e o contrata para trabalhar em sua cooperativa natureba. Aladeen aceita o emprego, mas por suas manifestações misóginas, racistas, discriminatórias, logo deixa empresa. 
Sem saber o que fazer, ele reencontra por acaso ele o ex-chefe do programa nuclear de Waddiah - Nadal - a quem Aladeen pensava morto, pois ordenara sua execução (como de tantos outros), em um lugar em Nova York chamado "Little Waddiah", uma localidade em que todos os dissidentes do regime totalitário se encontram refugiados, todos eles condenados à morte (e que Aladeen acreditava já executados), mas salvos pela resistência. 
Todos, ali, querem Aladeen morto, mas ele consegue se safar por estar sem barba, e Nadal volta a fazer aliança com o ditador, dês que, futuramente, volte a ser o chefe da equipe de pesquisas nucleares. 
Para conseguir uma barba substituta, Aladeen e Nadal buscam a barba de um morto, um negro que seria um líder de uma gangue. Como não conseguem cortar a barba em razão de algum contratempo, cortam a cabeça do morto, para depois aparar a barba. Algumas boas gags se darão com o uso da cabeça do morto.
De qualquer forma, Aladeen ainda não tem como entrar no hotel e impedir a mudança em seu país. 
Um dos caminhos possíveis é retornar ao seu serviço natureba, eis que a empresa será a fornecedora de comida para o evento. Ali, então, ele passa a comandar a lojinha com mãos de ferro, fazendo-a progredir imensamente em pouquíssimo tempo, sem anarquia, com ditadura uma empresa que até então era uma plena bagunça. Mas, em razão de uma agressão a uma criança, filho de alguém importante do hotel, a empresa perde o direito de fornecer o bufê. 
Sem outra saída, Nadal e Aladeen finalmente montam um plano, e conseguem entrar no hotel, substituir o sósia, e rasgar a nova Constituição, em vez de assiná-la. Tudo é cumprido à risca, exceto pela presença de Zoey, que faz com que Aladeen prometa faça um discurso apaixonado e admite fazer de seu país uma democracia. 
Ele retorna à terra natal, promove eleições "livres" - a cena dos tanques "convidando" todos que estava na fila de votos para a oposição a irem para a cabine de Aladeen é muito boa. 
No casamento de Aladeen com Zoey, esta diz que está grávida, revela que é judia, com o que o ditador lida da maneira mais natural possível - mandando matá-la. Ainda é mostrado Bin Laden, vivo e sob a proteção do plenipotenciário de Waddiah.

O roteiro - meio fraco mesmo - é de menos neste filme. O que vale são as gags visuais, as tiradas verbais, as situações cômicas criadas, a ironia em relação ao ocidente, nossas noções de democracia, atos equivocados tomados com base em soluções alegadamente democráticas. 
Dois discursos são muito bem feitos, um no momento final, ao louvar as "vantagens" de abusos da ditadura, citando condutas americanas (tortura, concentração de renda, grampo de telefones, controle da mídia, etc), e quando Aladeen pensa em se matar, ele faz uma breve paródia do discurso "I Have a Dream", de Martin Luther King. 
Anna Farris, para mim, não convence. Uma atriz de 30 e alguns anos toda embotocada é um exagero, e nada, em nenhum filme dela, me convence. Acho ruim. 
Sacha Cohen,depois de Borat e Bruno continua a ser um ótimo comediante. 
As gags dos jogos olímpicos, a transa com Megan Fox e as demais celebridades por quem Aladeen pagou dinheiro para ter sexo; as habituais condenações à morte com um mero passar de dedos no pescoço; as piadas com mulheres, judeus, democracia, americanos são, sem dúvida, engraçadas. O filme  não está à altura de Borat, e, talvez, nem de Brüno, mas é boa diversão.

Nota IMDB: 6.6. Vale mais. O humor cáustico certamente afasta telespectadores e rebaixa as notas de quem acha ofensivo este tipo de humor, que me agrada. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O PALHAÇO (2011), de SELTON MELLO - 26.08.2012

Segundo filme dirigido por Selton Mello - depois de Feliz Natal - é para mim um filme muito bonito.
Um circo pequeno, de interior - no filme perambulando pelo interior de Minas Gerais - lida com as dificuldades comuns a uma pobre trupe mambembe.
Selton Mello (Benjamin e palhaço Pangaré) é o filho de Valdemar (ou palhaço Puro Sangue), vivido por Paulo José, e é agora o responsável pela organização do circo, função que até pouco era exercida por Valdemar, pelo que se depreende do filme. 
Benjamim, embora palhaço que faz os outros rirem, vive sempre taciturno, preocupado, quer com o dinheiro para manter a trupe, quer com situações pequenas do cotidiano - um sutiã grande para uma integrante do elenco do circo, e tem como sonho comprar um ventilador para espantar o calor. 
O circo tem os palhaços, D. Zaira (Teuda Bara) dois músicos, um mágico, um anão e alguns outros participantes, dentre eles a bela e jovem Lola, namorada de Valdemar, um senhor - que, entretanto o trai e furta dinheiro do circo, aparentemente sem o conhecimento de seu namorado. 

O filme, então, sucede com a apresentação de números circenses, a combinação para agradar personagens importantes em cada pequeno município, as recepções à trupe nesses municípios, as dificuldades com o funcionamento do circo - alvarás, licenças e as respectivas propinas dadas para garantir as apresentações ou para se livrar de problemas (a pequena participação de Moacyr Franco como um delegado é muito boa), as dificuldades da vida - Benjamin sequer tem documentos - apenas a certidão de nascimento.
Durante todo o tempo, Benjamin fica em dúvida do que fazer, de sua capacidade para administrar o circo, e também tem questionamentos se não deveria abandonar a vida circense e fazer outra coisa de sua vida, estabelecer-se em um lugar fixando, deixando a vida nômade. Uma paixão platônica com uma menina que se apresenta a ele e diz que estará em outra cidade e que o circo deveria se apresentar por lá também o faz pensar em mudar de vida. 
Finalmente, Benjamin confessa a seu pai que deixará a companhia. No mesmo dia, enquanto parte a caravana ficando Benjamin a acompanhar sua ida, Valdemar pede a Lola o dinheiro que ela furtara do circo. Quando ela entrega, Valdemar diz que ela deve sair do caminhão e deixar o circo, não sem antes lhe dar o dinheiro que ela furtara, dizendo que ela precisaria. É uma bonita cena, em que Valdemar vê que Lola é semelhante a seu filho, uma jovem que provavelmente terá melhor sorte longe do circo. 
A propósito, Paulo José realmente está bem no filme. Normalmente, sua doença traz cacoetes a sua interpretação, e estes me afligem. Neste filme, eles não transparecem e o "Valdemar" é uma boa personagem.
Na cidade, Benjamin aluga um quartinho de hotel, tenta arranjar emprego, tem de correr atrás de documentos, e finalmente arranja um trabalho burocrático qualquer, para finalmente correr atrás daquela mulher que lhe convidara a ir a sua cidade. Lá, encontra a moça, noiva ou casada com outro. Tudo era uma ilusão. 
Benjamin compra um ventilador, e volta para o circo que, afinal, percebe ser sua vocação.
Nota IMDB - 7.6. Um pouco menos, mas um belo filme, sem dúvida.

domingo, 12 de agosto de 2012

TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO (1957), de BILLY WILDER - 01.08.2012

Um advogado criminalista, famoso por suas defesas em casos impossíveis - Sir Wilfrid Robarts (o ótimo Charles Laughton) - se recupera de um princípio de infarto e tem recomendações médicas para não mais voltar às lides criminais, restringindo-se às causas cíveis.
É quando Leonard Vole (Tyrone Power) é trazido ao seu escritório por Mayhew, pois suspeito da morte de uma senhora com certa posição social. Embora Wilfrid em princípio apenas ouça as alegações de Vole para formar seu convencimento sobre a procedência ou não da acusação, e pretende encaminhar o caso a um colega seu - Brogan Moore (John Willians), em certo momento ele resolverá assumir a defesa do acusado. 
Com o teste do monóculo - de forma a forçar algum nervosismo e algum ato falho do suspeito - Wilfrid se convence da inocência de Leonard, comenta algumas táticas defensivas com Brogan Moore.
Quando o encontro está terminado, e Wilfrid dá os últimos conselhos a Brogan, especialmente em como tratar a esposa de Vole para que esta não tenha faniquitos - esta chega ao escritório. Christine Helm (ou Vole), vivida por Marlene Dietrich, já desprezando os conselhos de Wilfrid, pois ela declara não desmaiar para nunca perder a graciosidade ao cair, e que não que gosta de ver água jogada ao seu rosto, para não borrar a maquiagem.

Wilfrid reluta, mas em poucos minutos, ele já está no escritório acompanhando as perguntas de Brogan Moore a Christine, e dada a frieza desta no que toca às perguntas sobre seus sentimentos em relação a Leonard, o advogado acha perigoso usá-la como testemunha de defesa, e resolve, de uma vez por todas, assumir a defesa do caso, contra a recomendação de todos (médicos, assessores, enfermeira, etc.). 
A única prova da defesa, então será a palavra de Leonard em seu interrogatório perante o júri, pois existe o receio de que Christine ponha tudo a perder, embora o marido confie nela, pois este acredita que somente sua esposa poderia confirmar seu álibi - na hora da morte, Leonard já estaria em casa, e logo, impossibilitado de matar a vítima.
É relevante dizer que Leonard conhecera Christine durante a II Guerra, e esta era uma artista alemã, e logo após breve romance, eles casam e Leonard a traz para viver na Inglaterra, salvando-a da pobreza do pós-guerra na Alemanha - e sem saber que ela já era casada (era mesmo) com um alemão que ficou na Alemanha Oriental durante a guerra.
Começa então o julgamento, em que o advogado de defesa se sobressai, com objeções processuais brilhantes - e corretas tecnicamente. Iniciam-se as oitivas das testemunhas, entre elas o chefe da Scotland Yard, a empregada da morta, e, surpresa: Christine - e eis o título, como testemunha de acusação.
As primeiras testemunhas apresentam apenas indícios circunstanciais que Laughton consegue relativizar, diminuindo a importância de tais testemunhos, mas quanto a Christine...

Chamada à bancada, ela desmonta por completo o álibi de Leonard, confirmando os horários da acusação, colocando seu marido na cena do crime, embora o advogado vivido por Charles Laughton consiga ao menos criar dúvidas quanto à veracidade do testemunho de Christine, mostrando que ela já mentira diversas vezes: para o próprio Leonard, ao omitir ser casada anteriormente na Alemanha, possibilitando um novo casamento; às autoridades britânicas para casar de novo, embora agora bígama; à polícia, ao depor confirmando o álibi agora desmentido.
Interrogado, Leonard jura inocência, afirma que a tese da acusação não tem sentido, que sua esposa Christine mentiu deslavadamente, por alguma razão na sabida. É apresentada contra o réu a circunstância de ele ter sido visto em companhia de uma morena em uma agência de viagens, vendo os preços de cruzeiros de luxo, ao que Leonard  contra-argumenta ter sido uma mera brincadeira, por ter sido desprezado na loja, e por pirraça, ele apenas perguntara os preços das viagens mais caras. 
O resultado do julgamento (assistido pela enfermeira de Wilfrid - responsável por conter seus excessos pós-infarto e uma mulher que muito se comove com os lances do julgamento) é uma grande incógnita, embora a tendência seja de condenação, até porque houvera uma mudança no testamento da mulher assassinada, sendo Leonard o beneficiário de 80 mil libras da herança da morta. 
Então, na noite anterior ao da conclusão do julgamento, com as alegações finais de parte a parte, Wilfrid recebe uma ligação de uma completa desconhecida, que diz ter provas da má-conduta de Christine, e com ela se encontra na estação ferroviária. 
Ali, uma maltrapilha cockney revela segredos de Christine, principalmente uma série de cartas em que esta manteria contatos com seu novo amante, onde estariam plasmados seus planos de incriminar a Leonard, negando o álibi de seu marido, embora verdadeiro, para poder seguir sua vida com o novo amor. 
Parênteses: No site de Marlene Dietrich (http://www.marlenedietrich.org/noteWitness.htm), ela afirma ter vivido a aleijada cockney - um tipo de inglês de uma certa região de Londres, com dialetos e sotaques distintos do londrino típico), embora pareça difícil de acreditar, tamanha a dessemelhança entre tal personagem e a persona Marlene Dietrich.

Então, no último dia da sessão do júri, antes do encerramento, o advogado de Leonard chama ao banco das testemunhas, uma vez mais, Christine, e após esconder as cartas de que tem posse e que lhe foram entregues pela maltrapilha cockney sob seus livros de precedentes, começa a ler, em um papel branco, o que seria o conteúdo das cartas da alemã para seu amante. 
No ato, Christine repele veementemente que tais cartas lhe pertencem, até porque os papeis de carta que usam eram da cor azul e não da cor do papel que estava sendo lido, momento em que  estratagema do advogado vivido por Charles Laughton se mostra brilhante - ele exibe as cartas escondidas sob seus livros, todas da cor azul.
Com base nisto, Leonard é absolvido.

As cenas finais nos reservam a grande surpresa - se não quiser saber, não leia: Encerrado o julgamento e absolvido o acusado, Wilfrid permanece no plenário achando que há algo estranho, a história que levou à absolvição ficou muito perfeita, sem falha alguma, e isto não lhe cheira bem.
É quando Christine adentra no plenário vazio e revela toda a farsa, que tudo foi preparado, que ela era a cockney que entregou as cartas ao advogado (em um trabalho de atriz que era), possibilitando o descrédito completo de seu primeiro testemunho, o planejamento para que ela fosse ouvida como testemunha da acusação para dar mais veracidade quando a defesa aparecesse com as cartas, e depois novamente chamada à bancada, espantando o advogado com seu plano.
Nesse instante, Leonard, que saíra absolvido e livre do Tribunal do Júri volta, é abraçado por Christine pela brilhante farsa que ficara toda sob responsabilidade dela, confessa o crime, e festeja que  agora estava completamente livre, pela impossibilidade jurídica de alguém vir a ser julgado duas vezes pelo mesmo crime, uma vez absolvido. 
E então, mais uma reviravolta: a morena mencionada na visita à agência de turismo durante o interrogatório do acusado - que vimos ser aquela mesma mulher bastante emocionada durante o julgamento ao lado da enfermeira de Wilfrid - chega também ao plenário, quando Leonard se desvencilha do abraço de Christine e beija apaixonadamente sua nova amante, revelando-se mais uma farsa, da qual a vítima agora é sua esposa alemã, que realmente tudo fizera por amor a Leonard.
Christine então pega, da mesa de evidências, a faca utilizada por Leonard para assassinar Mrs. French (Norma Warden) e mata seu marido, com uma facada, sendo presa nesse mesmo instante, sob os gritos de pavor da amante de Leonard e o olhar incrédulo de Wilfrid

"What a remarkable woman", é o que pode sentenciar Wilfrid, desistindo definitivamente de sua aposentadoria, deixando o plenário disposto a fazer, doravante, a defesa de Christine, até mesmo sob a aprovação de a sua até então relutante enfermeira, que inclusive revela saber que na jarra de café do advogado este guardava um conhaque de boa qualidade.

Nota IMDB: 8.4. Um pouquinho menos, talvez; mas, sem dúvida, um filmaço. Diálogos incríveis, atuação soberba de Charles Laughton, um final surpreendente com um grande twist, mas cuja possibilidade já tinha sido mencionada brevemente - ou seja, sem furos absurdos e que irritam, e uma dubiedade muito interessante (por exemplo, o casamento anterior de Christine, com um alemão antes da guerra é uma possibilidade real, mas ao mesmo tempo, pode apenas ser mais um detalhezinho para dar veracidade ao esquema montado pela alemã para inocentar seu marido), que nos deixa sempre atentos e surpresos. Assista.

O SEXTO SENTIDO (1999), de M. NIGHT SHYMALAN - 22.07.2012

Rever um filme cujo final - que é surpreendente na primeira vez - já se sabe tem um pouco da graça diminuída, mas, mesmo assim, vale a revisão, ainda mais quando a primeira vez a que assisti a tal filme foi em seu lançamento no cinema.

Bruce Willis é o psiquiatra infantil Malcolm Crowe, que na noite em que é condecorado pela comunidade da Filadélfia e está comemorando com sua esposa Anna (Olívia Willians), quando têm seu quarto invadido por um ex-paciente de Dr. Crowe - Vincent Gray, em uma caracterização impressionante de Donnie Wahlberg - e Vincent, depois de dizer que o médico não o ajudou, o diagnosticou erradamente, e nunca ter entendido o medo que Vincent sentia em ficar sozinho, dispara um tiro na barriga do médico e logo em seguida se suicida.
Temos então o corte para algum tempo depois (próximo outono) - o que se revela um truque interessante para a seqüência do filme, quando o médico está observando um menino, Cole Sear (Haley Joel Osment), que parece ter problemas parecidos com o de Vincent. No início, Cole é bastante reticente em aceitar ajuda, é um menino recluso, sem amigos, que se considera um anormal, e Crowe não consegue diagnosticar corretamente o problema do  menino.
Com o passar do tempo, Cole começa a se abrir com Malcolm, e após ser importunado por alguns colegas de escola em uma festa de aniversário, sendo trancafiado em um sótão, Cole é internado com trauma psicológico e alguns arranhões. No hospital, conquistada a confiança do menino, este diz ao médico que o seu segredo - e seu problema - é que ele vê gente morta, todo o tempo (I See dead people).  Malcolm então desconfia que o problema de Cole é ainda mais sério do que ele imaginava, que aquele tenha algum delírio paranoico; mas nós, os espectadores, podemos então realmente ver que Cole vê mortos, pessoas que morreram e o atormentam, lhe infligem medo.
Malcolm desiste de atender o menino até perceber que o problema do seu novo paciente pode ser o mesmo daquele que o alvejou, Vincent. Comprova tal suspeita com a escuta das antigas fitas das sessões de terapia de seu ex-paciente, em que há um fenômeno de captação de vozes de pessoas mortas que conversavam com Vincent em um momento em o médico deixou a sala da consulta.

Ao mesmo tempo, Malcolm tenta "resgatar" seu casamento com Anna, que aparentemente vai mal, inclusive um colega de trabalho dela passa a dar em cima dela, mas não é bem sucedido, vemos cenas em que Anna não dá atenção a Malcolm, especialmente a do jantar de aniversário, a que ele chega atrasado, e ela rapidamente deixa o restaurante, apenas lhe desejando "happy aniversary".

A partir do momento em que Malcolm passa a acreditar em Cole, e este lhe conta das experiências sensoriais, de que os mortos têm raiva, por vezes o agridem, Dr. Crowe acredita que os mortos podem estar precisando de ajuda, e então Cole começa a auxiliar os "dead people" que vêm até ele, fazendo cessar as agressões e o seu próprio medo - o episódio da menina envenenada é o mais bem descrito no filme, mostrando a culpa da madrasta, deixando clara a missão de Sear - auxiliar os errantes.
A partir daí, Cole passará a ser um menino normal, que interage com os mortos para resolver questões irresolvidas e, aparentemente, liberando os espíritos atormentados que vagavam pela terra. Sear passa a viver normalmente em seu cotidiano, melhorando a problemática relação com sua mãe (após revelar que fala com os mortos e regularmente mantém contato com sua avó morta e que esta se orgulha de sua filha), bem como em seu cotidiano escolar, onde era um excluído. Essas questões, porém, ainda serão secundárias, de acordo com o que está por vir, não como qualidade fílmica, mas pela surpresa que o filme reserva.

Quem não quiser saber o final do filme - o que considero bastante improvável tanto tempo depois de o filme ter sido lançado - não leia o restante.
Resolvida a questão do menino, Dr. Malcolm volta à sua casa, pois a situação com sua esposa Anna continua em aberto - acolhendo a sugestão de Cole de falar com sua esposa enquanto esta dorme - eles "conversam", falam da falta que um sente pelo outro, até o momento em que Anna deixa a aliança de Malcolm cair no chão, revelando então que o protagonista do filme está morto. Lembro-me de no cinema ter ficado bastante surpreso com a revelação, e que o filme deveria ter encerrado nesta exata cena - impressão que mantenho até hoje, treze anos depois. As cenas subseqüentes, para não deixar qualquer dúvida de que Dr. Crowe estava morto, ele liberando Anna para seguir sua vida sem preocupar-se com o morto, repisando os contatos - ou a ausência deste nas relações entre Dr. Crowe, sua esposa Anna ou a mãe de Cole - mostrando a marca de sangue seco na camisa do médico, ou explicando que os mortos só vêem o que bem entendem - como lhe dissera Cole - mostrando ainda por que ele não conseguia abrir certas portas, tudo para não deixar qualquer dúvida (se é que seria possível) de que Malcolm era uma das das "dead people" avistadas por Cole.

Nota IMDB: 8.2. É por aí, talvez um pouquinho menos. 
Há detalhes interessantes que somente uma segunda visão do filme, permite ver (ao menos para burros como eu), como ver que Crowe nunca troca a camisa com que foi baleado, várias vezes usa o moletom que tinha no dia do homicídio, o esfriamento do tempo cada vez que um morto fica com raiva, ou o destaque dado à cor vermelha em momentos de proximidade com os mortos são detalhes bastante interessantes, típicos da filmografia de Shyamalan que, certamente, tem seu charme e se constituiriam em dicas importantes para que o espectador mais astuto pudesse depreender, mais cedo no filme, que Crowe estava morto - conclusão a que nunca pude chegar na primeira vez que vi o filme. 

domingo, 5 de agosto de 2012

BARBOSA (1988), curta de JORGE FURTADO - 03.08.2012

Um dos curtas de Jorge Furtado, da Casa de Cinema de Porto Alegre. Antônio Fagundes vive um homem que, criança, esteve no Maracanazzo em 1950, acompanhado de seu pai. Uma mescla das imagens reais da final da Copa de 1950 com imagens fictícias. 
Fagundes volta no tempo, como objetivo único de ajudar o nosso goleiro, Barbosa, e evitar o gol Ghigghia.
Há uma entrevista real de Barbosa em que ele diz que nada mudará o passado, mas Fagundão viaja para mudar a vida do arqueiro e também a sua vida, expurgando as frustrações: as próprias e as do país. 
Ao chegar ao Estádio, sua missão é chegar atrás do gol de Barbosa, e alertá-lo do que haverá. Ao tentar entrar no campo, sofre um contratempo com um segurança, e só consegue chegar à baliza no momento do chute de Ghigghia, no exato instante chama por Barbosa, desviando sua atenção do chute, sendo responsável pelo gol sofrido, falhando miseravelmente em seu intento, que seria o de - revelado ao final do curta - dar um soco no ponteiro uruguaio.

"O homem é um ator que gagueja na sua única fala, desaparece e nunca mais é ouvido" - Shakespeare, em frase usada como epígrafe do filme.
Nota IMDB - 7.6. Sei lá, acho difícil dar nota para um curta, mas esse é bem legal. Boa montagem, boa idéia. 

domingo, 15 de julho de 2012

UMA AVENTURA NA ÁFRICA (1951), de JOHN HUSTON - 13.07.2012

Enquanto estão na África o missionário Rev. Samuel Sayer (Robert Morley) e sua irmã Rose (Katherine Hepburn), ambos britânicos, aparentemente tentando catequizar alguns negros africanos, eclode a primeira guerra mundial, e os problemas daí decorrentes serão o mote do filme, junto com o romance que nascerá de circunstâncias improváveis. 
Charlie Allnut (o grande Humphrey Bogart) é um barqueiro que conduz o "African Queen", um pequeno barco a vapor pelos rios africanos, fazendo as vezes de correio, transportador, levando tudo o que precisa ser levado entre as várias aldeias ali existentes. 


Antes de prosseguir, tenho de fazer uma confissão: Katherine Hepburn nunca me conquistou. Em verdade, esse foi apenas o segundo filme em que ela está a que assisti - o anterior foi "Adivinhe quem vem para o jantar", o drama interracial com Spencer Tracy - seu marido ficcional e real. 
Hepburn me parece uma atriz teatral, e não cinematográfica. Seu gestual sempre me pareceu afetado, e, no final da vida, agravado pelo tremor que para mim indicava Parkinson avançado - e segundo muitas fontes, uma espécie de tremor de mãos e cabeça sem relação com os demais sintomas do Mal de Parkinson - me exasperava.
Núpcias de Escândalo, um filme com Cary Grant e Katherine - um grande sucesso a que não consegui assistir em razão da ultrajante dublagem que o TCM providenciou para esse clássico da comédia também me ajuda a não simpatizar com a atriz - o que pode ser uma das razões pelas quais não gostei tanto assim deste "The African Queen".


Voltando ao filme, com a eclosão da guerra, logo uma tropa alemã chega ao acampamento missionário, e destroi as construções, faz prisioneiros os africanos, agride o Rev. Samuel Sayer. Rose fica ali, cuidando de seu irmão que passa a sofrer de problemas mentais/emocionais em decorrência do que houve, até que venha sua morte. Logo após a morte, Charlie chega novamente à aldeia, ajunta a enterrar o reverendo e convence Rose a acompanhá-lo, pois ficar ali para morrer não seria grande ideia.


Duas personalidades distintas então se encontram e terão de arranjar um jeito de conviver. Allnut pensa somente na sobrevivência, e por ele, viveriam nas sombras, escondendo-se durante a guerra. Rose, religiosa, firme, e irresignada com a situação, apela para o orgulho britânico (se bem entendi, Allnut seria canadense e, portanto, também sob a batuta da realeza ingelsa), dizendo que eles devem afrontar os alemães. 
Charlie - que chegara à África para trabalhar na construção de uma ponte e foi ficando - apenas pensando em sobreviver e beber seu gim à vontade (depois de um porre Rose joga toda a bebida fora), seguem no barquinho a vapor, o "African Queen". 


As dificuldades de relacionamento, o barquinho simples a vapor, o encontro com os alemães, e a sobrevivência a tudo isso, vai fazendo o improvável casal entre um homem sem porto e uma mulher inflexível e religiosa (embora sempre pronta a ajudar), tornar-se-á inexorável. Esses dois tão diferentes, suplantando as dificuldades, passarão a se amar e seguirão, por fim, o plano de Rose, de buscar o local em que um barco de guerra alemão estará fazendo sua patrulha. Improvisando torpedos com as cargas que Charlie tem a bordo e não conseguiu entregar em razão da guerra, os dois se emaranham nos rios da África, se perdem em seus labirintos, quase morrem por diversas vezes. Ao final, já imaginando-se sem solução em uma espécie de pântano, onde se resignam ao seu destino, são salvos por uma chuva (e pelas orações de Rose, ao que parece) que revela que estavam próximos ao lago patrulhado pelos alemães com seu vapor "Louisa".


Eles então, com seus torpedos encrustados ao caso do "African Queen", eles partem em direção ao "Louisa" (numa missão suicida, a meu ver), mas dada a tempestade, o pequeno barco dos dois naufraga e, no dia seguinte, ambos, náufragos, são capturados (separadamente), e logo, reunidos, condenados à morte por enforcamento - por crime de guerra - em julgamento sumário. Prestes a morrerem, expressam a última vontade - de casar -  realizada pelo oficial alemão. Na hora exata do enforcamento, o African Queen, naufragado mas apenas parcialmente submerso, é atingido pelo Louisa, afundando-o e permitindo que Charlie e Rose consigam fugir, terminando com sucesso a "aventura na África". 


Eu não captei a beleza ou a relevância do filme, sempre muito elogiado. Me pareceu um filme de aventura bastante comum, e o romance entre duas pessoas já com alguma idade, pouco empolgante. 
Vi a cópia restaurada, e sem dúvida, muitas das imagens africanas são deslumbrantes. As cenas de ação são razoáveis, contudo há muitas cenas (principalmente na corredeiras) em que o barco é visivelmente tripulado por bonecos, e há muitas cenas em que a paisagem de fundo é projetada, a filmagem claramente foi feita no estúdio, e não na locação (dizem que as dificuldades para filmar na África na década de 1950 foram enormes, inclusive livros sobre tal aventura existem). 
Eu que vi The Treasure of Sierra Madre - um filmaço de aventura filmado também dirigido por John Huston - acho esse Uma Aventura na África bem menor. 
Acredito que o título original "african queen", além do nome do barco, é também uma referência à personagem Rose, uma mulher dura, cheia de regras religiosas, e que mesmo tenha seu coração amolecido pelo vagabundo marinheiro interpretado com alguma graça por Bogart (que inclusive ganhou o Oscar por esse filme), mantém sua conduta altaneira, passando a conduzir o bote, impondo suas convicções, ajudando nas mais difíceis tarefas - por exemplo, a reforma da hélice e leme da embarcação, sob a água. 
Talvez o amor tardio, entre duas pessoas tão diferentes, talvez um erotismo que não tivesse sido ainda visto no cinema (não tenho certeza disso), inclusive com os protagonistas em pudicas roupas de baixo, tudo isso tenha tido importância a seu tempo, mas que no cinema atual não despertam qualquer sobressalto, pois comuns.


Nota IMDB - 8. Dou um 6. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

CAMELOS TAMBÉM CHORAM (2003), de BYAMBASUREN DAVAA e LUIGI FALORNI - 09.07.2012

Este, digamos, "docudrama", nos apresenta o cotidiano de uma família de moradores mongóis do Deserto de Gobi. Quatro gerações de mongóis, vivendo como pastores que se poderia dizer da idade média ou colonos do século dezoito ou dezenove, exceto pela utilização de uma tenda industrializada - e da possibilidade de contato com alguma civilização, mas que vivendo isolados de qualquer comunidade, sobrevivem da criação de ovelhas, cabritos e camelos.
É interessante notar que em seu cotidiano, os ritos familiares tem grande valor, todos trabalham unidos, todos comem unidos, e não se vê brigas naquele ambiente.
Há os idosos (avós e pais), mas que nem por isso deixam de ir ao trabalho, um casal jovem, e mais três crianças, uma pré adolescente, outra de cinco ou seis anos, e uma menininha de uns dois ou três anos. 
Relevante observar que por mais que a cultura do povo mongol - ainda mais de pastores nômades, penso eu, e é de notar que pouquíssimo sei sobre a Mongólia - seja absolutamente diversa de qualquer coisa que os ocidentais possamos conceber, o cotidiano (preparar as refeições, comer, trabalhar, cuidar das crianças, etc) em muito se assemelha ao de todos nós, exceto claro pelos aspectos fisionômicos, modo de vestir, cultura religiosa assim ou assada. As aspirações comuns às nossas também parecem estar ali, latentes.
Parece-me que o mais interessante do filme é o menino Ugna, que com cinco ou seis anos quer começar a fazer parte da família, pede para ir junto com seu irmão pré-adolescente até a aldeia mais próxima, para buscar o músico que participará do ritual para "amansar" o camelo-fêmea. 
Ali ele quer demonstrar que pode participar da vida familiar (e logo, também do trabalho), mas, no caminho, sua meninice se revela em traços perceptíveis para qualquer ocidental (afinal, é uma criança), tal como o desejo de que seu pai compre uma televisão (realizado do final do filme) - embora seu irmão diga que uma TV custaria o equivalente a 20 ou 30 ovelhas, a felicidade por assistir à televisão, por chupar um sorvete, por jogar videogame. 
Sobre a televisão, embora essa seja comprada como se vê no epílogo, o ancião diz ao neto que ela seria desnecessária, pois não teria graça ver uma imagem em um vidro - quer dizer que a vida real é muito mais rica, me parece, ainda que naquele ambiente desértico e inóspito.
O episódio que dá nome ao filme - a rejeição de uma camelo-fêmea a seu filhote, aparentemente pela dificuldade do parto - me pareceu algo menor no filme, embora seja surpreendente que realmente com uma cantoria e o toque de um instrumento de cordas bastante rústico, a camelo-fêmea realmente chore e, enfim, solte o leite e permita que seu filhote seja amamentado. O choro também pode ser entendido como o "choro" do filhote enquanto sua mãe o rejeitava.
Nota IMDB - 7,2. Por aí, um pouco menos, talvez, mas curtinho, deve ser visto.

domingo, 8 de julho de 2012

OLHOS DE SERPENTE (1998), de BRIAN DE PALMA - 04.07.2012

Penso que assisti a esse filme umas duas vezes antes de novamente olhá-lo ontem, e gosto do filme, que tem baixa nota no IMDB. Na verdade, gosto muito da primeira metade do filme, depois o negócio degringola bastante.
Nicholas Cage é Rick Santoro, um policial corrupto de Atlantic City. Em uma luta de boxe pelo título dos pesados, o Secretário de Estado da Defesa é assassinado, ainda que contasse com segurança de militares, sob a supervisão Kevin Dunn (Gary Sinise)

A câmera do cineasta De Palma no início do filme é espetacular. Ela inicia com uma repórter do tempo fora do ginásio em que se dará a luta, acompanha a entrada do Secretário, seu segurança Dunne; o flanar de Santoro, que se encontra com um bandido que lhe deve uma propina, com o bookmaker que faz suas apostas, com o próprio campeão Lincoln Tyler, e finalmente com Kevin Dunn, que além de segurança do Secretário de Estado é, o melhor amigo do policial corrupto de Atlantic City. 
A câmera ainda continua, como se sem cortes ou com estes bem disfarçados, e acompanhamos uma ruiva que chama a atenção de Dunn, fazendo com que este deixe o seu local, exatamente em frente ao do Secretário, o que será determinante para o assassinato.


A esta altura, a luta já está acontecendo. Uma loira aparece, cochicha algo com o político no exato momento em que o campeão é derrubado pelo desafiante, e no alvoroço do knock down, o Secretário é atingido mortalmente por tiros, enquanto a "loira" perde sua peruca, seus óculos, e é atingida no braço, mas escapa. 
Kevin Dunne, que por ter ido atrás da ruiva, estava do outro lado do ginásio, ao lado de onde saíram os disparos, mata o "terrorista" que assassinara o político. 


Contudo, os tiros iniciais, direcionados ao Secretário fazem com que o campeão nocauteado abra os olhos para ver o que aconteceu, detalhe que é notado por Santoro. Logo ele vê que algo anda errado e o nocaute fora forjado para encobrir o crime. Contudo, com essa momento, o filme está também prestes a deixar de ser ótimo entretenimento para abraçar o fracasso. 
Ainda há alguns bons momentos na procura pela loira (da peruca) - Julia Costello (Carla Gugino) - com mais um travelling "por cima" de Brian de Palma.  Mas improbabilidades como a câmera que gravou o assassinato por acidente, o diálogo sem nexo do final, que pressupunha uma afogamento anterior, que ao cabo não foi filmado (ou cortado na montagem), a inverossimilhança no tratamento entre os ex-amigos, a surra que Santoro toma do boxeador campeão derrotado (tenho a impressão que naquela exata cena o Cage se tornou definitivamente o canastrão que ainda é hoje, talvez a surra tenha sido de verdade) começam a irritar. 
Já pelo meio do filme, Cage já descobre que Dunn está por trás da morte do Secretário - em razão de discordâncias sobre um sistema de defesa aérea (e Julia mostraria ao Secretário que o sistema era falho). 
Vê-se nesse momento mais uma demonstração de estilo do Diretor, recontando a história com os detalhes que não tinham ficado claros (digamos, o outro lado da câmera, bem feita também, revelando como foi arquitetado, dentro do ginásio, o atentado ao Secretário de Estado). 
Contudo, a partir da descoberta prematura da conspiração, o filme deixa de ser um filme policial, de busca e descoberta do culpado, para se tornar uma caça e rato entre os ex-amigos e a discussão do estranho motivo para o crime, não sem desconsiderar que Santoro era um corrupto, com o que Dunn contava, em caso de ser descoberto, com a complacência de um policial que levava dinheiro. E o filme vai à lona. 
Snake eyes é uma expressão americana para o zero-zero da roleta, em que todos perdem, só a casa ganha. Primeiro, Santoro arca com as conseqüências de não se render à chantagem de Dunn, e este diz que seu amigo perdeu tudo e será morto; ao final, Dunn, prestes a matar o policial e a testemunha e assim limpar qualquer evidência contra si,  dá de cara quase que inexplicavelmente com a polícia na saída do ginásio, ainda tenta dar explicações, e pela última vez pedir o auxílio de Santoro, sendo a hora do personagem de Cage responder com a tirada do snake eyes: apostou tudo, perdeu tudo.
No epílogo (apressado), Santoro, corrupto assumido, tem seus dias de glória por ter decifrado o golpe (e por várias vezes disse que seu plano era de prefeito), vira herói, até o momento em que seus "pecados" surgem e sua reputação vai para o vinagre. Essa ideia me é simpática, que o sujo sempre pode querer passar por impoluto, e a queda é inevitável ou, ao menos, previsível. O caso Spitzer, por exemplo.
O final, constrangedor, como Rick Santoro condenado a 18 meses de prisão, encontra-se com Júlia em frente ao ginásio, estes conversam sobre alguma coisa (inclusive o papo do afogamento), e ela promete esperá-lo para após a detenção. 


Nota IMDB - 5,8. Poderia ser um pouco mais, pelo brilhante começo e mais algumas boas sacadas de câmera e montagem, mas a história decepciona. Fico por aí. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O GAROTO (1921), de CHARLES CHAPLIN - 02.07.2012

Era 1921, e o cinema estava todo ali. Estou revendo esse filme depois de muitos anos (o filme de que ainda gosto mais de Chaplin é O Circo), e a  beleza é praticamente infinita. 
Uma mãe (Edna Purviance), pobre e solteira - um Cristo carregando uma cruz dá a dimensão do fardo a carregar - tem um filho em um hospital de caridade. Sem ter como sustentá-lo, o deixa em um "carrão", assim imaginando que a criança será adotada por uma família rica.
Acontece que o carro é furtado e os ladrões, percebendo que tem uma criança dentro do carro, a deixam em um beco de uma área pobre da cidade.
Em seu passeio matinal no subúrbio, o vagabundo Carlitos encontra o órfão, e tenta livrar-se dele, largando-o na rua mesmo, ou com uma mãe que tem outra criança, mas é impedido ou por esta ou por um policial da redondeza. Depois de algum tempo, ao ver o bilhete que a mãe deixa junto à criança, pedindo que se lhe dê afeto e amor, resolve criá-la, ainda sem saber sequer se é um menino ou uma menina. As cenas do bebê, num berço improvisado, e tomando uma mamadeira em um bule são bastante boas.


Passam-se então 5 anos, e o garoto já crescido ajuda na sobrevivência do vagabundo, especialmente quebrando janelas com pedras para que Carlitos possa consertá-las e assim arranjar algum trocado. Almoços e cafés da manhã dos dois são um deleite para quem assiste. A pobreza não impede Carlitos de amar incomensuravelmente a criança. 
A mãe da criança, sempre saudosa de seu filho e agora uma atriz de sucesso e rica, faz caridade com os pobres, e inclusive, por acidente, cruza com seu próprio filho, sem reconhecê-lo.
Após uma briga de rua, em que "The Kid" (o ótimo Jack Coogan) bate em um garoto bem maior. Logo após, o garoto cai doente, e ao ser consultado, o médico acha por bem que o guri não está em boas condições naquele pardieiro junto com um mendigo, sem uma mãe, e chama a instituição que cuida dos órfãos para levá-lo.
Em mais um quiproquó, Chaplin enfrenta o policial, o oficial de menores e seu ajudante, e consegue finalmente ficar com o menor. Essa cena aí acima ficou muito famosa, é aquela em que eles estão para levar a criança, ainda antes de Carlitos a recuperar.
No entanto, sem poder voltar para casa, Carlitos vai a um dormitório para pobres, e ali, o responsável pelo albergue vê um anúncio de uma recompensa de mil dólares pelo menor (eis que a mãe vira com o médico o bilhete que escrevera no momento em que abandonou o recém-nascido), e resolve raptar o menino e entregá-lo na polícia.
Desolado sem o garoto, Chaplin vai a seu pardieiro, e até sonha com o menor, em cena bem feita, em que eles inclusive chegam a voar, quando é acordado por um policial, e por ele levado, sem saber para onde. Quando chegam em frente a uma grande casa, a porta é aberta e lá de dentro saem o garoto e sua mãe. Um abraço entre o menor e o vagabundo encerra o filme. 


Um filmezinho de apenas uma hora, feito em 1921, e espetacular. Cenas hilárias, outras comoventes, gags clássicas de Chaplin, um roteiro simples mas bem construído, um clássico, enfim.
Nota IMDB - 8.3. Vale tudo isso.

NOVE RAINHAS (2000), de FABIAN BIELINSKI - 24.06.2012

Filme argentino de que gosto muito, acho que foi uma das películas que deu impulso ao novo cinema argentino, que tem se destacado como um dos grandes pólos cinematográficos, especialmente na América Latina, muitos passos adiante do que se fez e se faz no Brasil, no mesmo período, com raras exceções.


O onipresente Ricardo Darin interpreta Marcos, um golpista profissional. Gaston Pauls vive Juan, um pequeno golpista. Embora tudo seja aparências, nesse filme.
Em um encontro "casual", Marcos Juan aplicando um golpe com troco em um posto de gasolina, e quando este é apanhado, Marcos o salva, fingindo ser um policial - um trambiqueiro salva o outro. 
Marcos então propõe a Juan que trabalhem juntos, ao menos por um dia, até porque seu antigo parceiro está sumido. Juan reluta mas, depois de um tempo, aceita e eles começam a dar pequenos golpes, até o momento em que surge a grande chance: Valéria (Letícia Bredice), a irmã de Marcos, que trabalha em um grande hotel de Buenos Aires, o procura porque um amigo deste, também golpista (principalmente um falsificador), de nome Sandler, estava tentando dar um golpe no hotel, mas tendo quase sido pego, passa mal, e quase infartado - ou coisa que o valha - chama Marcos para que termine o golpe por ele, e divida o dinheiro, o que Marcos aceita, mas dando apenas 10% para Sandler, que já velho e doente, não tem outro caminho senão aceitar a proposta indecorosa.
Sandler então explica que ele conseguiu falsificar "As Nove Rainhas", uma série de selos raros (os originais eram de seu irmão, e a viúva deste não os venderia pois a posse deles teria valor sentimental para ela, como lembrança de seu ex-marido), e que ali no hotel está um possível comprador, o empresário Vidal Gandolfo (Ignasi Abadal), mas que ele ficará na cidade apenas mais um dia, eis porque o negócio tem que ser concretizado rapidamente. 
Marcos e Juan então bolam um plano para se aproximar de Gandolfo, o que dá certo, embora esse lhes diga desde logo que já manjou o proceder dos gatunos, mas mesmo assim, pretende fazer negócio com eles, comprando os selos valiosos, por um preço que ele mesmo estipulará, pois os trambiqueiros não sabem o que têm em mãos (inicialmente, eles imaginavam ganhar 30 mil com o "negócio).
No dia estipulado para o negócio, um avaliador verifica - falsamente - a autenticidade dos selos, e Gandolfo oferece 300 mil pelos selos, e após Juan bater o pé, a oferta chega a 450 mil. O negócio será feito no outro dia pela manhã. Quando saem do hotel, um motociclistas roubam os selos, e os jogam na água, desmanchando a falsificação. 
Então, Marcos só vê uma saída, tentar comprar os selos originais da viúva saudosa de seu ex-marido. Lá chegando, só conseguem negociar os selos originais por 250 mil ou 300, embora a viúva pouco estivesse aí para o valor sentimental; queria é dinheiro. 


Aí vem a grande sacada da história. Marcos tem em seu poder uns 200 mil que conseguiu dando o golpe no inventário de seu pai, prejudicando seus irmãos (Valéria e Federico), e tal valor, somado a um montante de 50 mil que Juan já avisara ter, e que teria de ser usado para pagar uma dívida de seu pai, que está na prisão, dá pra comprar os selos. Assim, o dinheiro de ambos é usado e pago para aquela viúva, para comprar os selos e revendê-los, ainda com um potencial lucro de duzentos mil. 
Quando vão fechar o negócio, Gandolfo vê uma discussão entre Valéria e Marcos, e então o comprador refaz a proposta, aumentando a pedida para entregar os 450 mil - quer os selos e a irmã de Marcos para passar uma noite com ele. Valéria aceita a proposta desde que seu irmão confesse ao irmão menor - Federico - o golpe no inventário. Este concorda, e Valéria vai ao quarto, com os selos.
Na manhã seguinte, Valéria sai do quarto com um cheque de 450 mil dólares. Marcos contesta o pagamento em cheque, mas é obrigado a aceitá-lo. E então ele terá de descontar o cheque no banco X, quando este abrir. 
Quando vão ao banco, este, neste exato dia, sofre uma intervenção federal , e Marcos e Juan se vêem sem seu dinheiro. 
Esse seria o desfecho do filme, não fosse a virada, o twist que costumeiramente me irrita, mas nesse caso específico é bem feito.
Marcos e Juan se despedem, e então, o aprendiz de trambiqueiro, andando pela cidade, chega a um galpão em que estão reunidos Valéria, Sandler, a viúva, Gandolfo, o "avalizador" da veracidade dos selos, todos eles pertencentes a um grupo que, como se vê, tinha como objetivo enredar Marcos e recuperar o dinheiro que este surrupiou de seus irmãos, que inclusive contava com a informação de um insider do banco, que tinha a certeza da intervenção no banco no dia e que o falso cheque não poderia ser descontado.


Nota IMDB - 7.8. É por aí. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

EM BUSCA DO OURO (1925), de CHARLES CHAPLIN - 07.06.2012

Comédia (sempre com algum drama, em Chaplin) genial. A primeira aparição do famoso personagem de chapéu e bengala já rende uma gag muito boa, quando ele, caminhando por um desfiladeiro é perseguido, sem perceber, por um urso. 
Na corrida do ouro no Alasca, Carlitos vai em busca da fortuna, mas logo se vê enredado por muito mais problemas do que apenas o dinheiro que lhe falta. 
Com fome, sem ouro, pobre com um rato, chega à cabana em que está instalado o perigoso Black Larsen, um bandido procurado. Ali, ambos mortos da fome, se estranham e Larsen está a ponto de conseguir expulsar o extenuado mendigo, até que chega Big Jim McKay (que encontrara uma grande mina de ouro e a deixara só para buscar o necessário à exploração), que intercede em favor de Carlitos, e assim, embora com desconfianças mútuas, o três personagens continuam na cabana até que a fome de todos torna-se desesperadora, e, em sorteio para ver quem deixará a cabana em busca de alimentos, Black Larsen (Tom Murray) tira a má sorte, tendo que enfrentar o frio extremo.
Em sua busca por comida, Larsen cruza com os policiais que estão em seu encalço, os mata, obtém os meios de subsistência que estes carregavam consigo. Ademais, Black encontra a mina de Big Jim, e pretende ficar com o ouro ali existente.


Enquanto isso, na cabana, a fome aperta ainda mais (chegam a compartilhar e devorar uma das botas de Carlitos), e McKay (Mack Swain) tem alucinações (cena brilhante), vendo Carlitos como uma grande galinha, e tenta matá-lo(a) para ter o que comer. O gestual de Chaplin como um frango é impressionante, bem como a perseguição de Big Jim ao nosso herói, aquele na caçada, este na defensiva. As lutas, a perseguição, a trucagem Chaplin/galinha, tudo funciona à perfeição.
Quando praticamente não há mais solução, um urso invade a cabana, e se, a um tempo, é uma ameaça, é também a solução, pois o urso é morto e lhes serve de comida. Saciados, recompostos, eles deixam a cabana, despedem-se, cada um partindo para o seu lado.
Chaplin se dirige à cidade. Big Jim vai em direção à sua mina, onde encontra Black Larsen que encontrara a mina de Mckay, e após discutirem, este golpeia o grandão bonachão, deixando-o inconsciente, mas como castigo, sofre um acidente - o desprendimento de uma parte de uma geleira, e morre. Big Jim acordará, mas com amnésia. 


Na cidade, Chaplin vai a um bar, se encanta por uma dançarina (Georgia - Georgia Hale), que flerta de leve com ele para causar desapontamento em um pretendente. Ao cabo, esse pretendente vai querer surrar Carlitos, mas o vagabundo, com um golpe de sorte - a queda de um relógio quando já nada via, eis que seu chapéu lhe tinha sido enfiado na cara - é quem nocauteia o latagão, acreditando erroneamente que lhe derrubou com um soco às escuras. 
Saindo dali, ele se dirige à cabana de um outro mineiro onde consegue abrigo e comida por uns dias. Georgia e suas amigas por acaso passam pela cabana, e são convidados pelo garimpeiro para entrar. Georgia acidentalmente encontra uma foto de divulgação da dançarina, dando-se a entender que Chaplin está apaixonada por ela. Esta leva tal atração como uma brincadeira, e ela e suas amigas se divertem às custas de Carlitos. No final dessa reunião, Chaplin convida as moças para que passem juntos a ceia de ano-novo, convite que elas aceitam. 
Na noite de ano-novo, contudo, as bailarinas, entretidas na festa no bar, deixam de aparecer para a bela festa armada por Chaplin (com dinheiro que ele consegue limpando a neve de estabelecimentos comerciais da cidade), que fica muito decepcionado. Georgia, lá pela madrugada, lembra-se de seu compromisso e vai à cabana, quando Carlitos já não mais estava por lá - dirigira-se ao bar.
Chaplin, desolado, vai ao bar, encontra Jim McKay que, embora com amnésia, se recorda de seu antigo companheiro de dificuldades, e diz que se este puder lembrar o caminho para a cabana, ambos ficarão ricos, pois dali ele poderá lembrar-se do caminho até a sua mina de ouro.
Ambos chegam à cabana, e vão dormir para no outro dia ir à caça do ouro. Durante a noite uma avalanche desloca a casa até a beirada do penhasco (foto aí acima), e mais uma série incrível de gags com a casa cambaleando à beira do abismo é mostrada, até que finalmente a casa cai, sendo Chaplin salvo agarrando-se a uma corda sustentada por Big Jim.
Não vemos a dupla encontrar o ouro, mas apenas os garimpeiros depois do encontro com a fortuna, já suntuosamente vestidos - e ricos - em um navio deixando o frio fim de mundo em que foram atrás (e encontraram) a fortuna. 
Ali, estão fazendo uma reportagem sobre o novo-rico, e sugerem que ele se vista como o mendigo que fora para ilustrar a reportagem, e ele concorda. Então, no deck do navio, é confundido com um ladrão que está a bordo, e detido. Logo, no entanto, se desfaz a confusão com a interveniência da tripulação e ele encontra Georgia, com quem finalmente fica junto. 
Nota IMDB: 8,3. É por aí. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

ZUMBILÂNDIA (2009), de RUBEN FLEISCHER - 10.06.2012

Esse pequeno - e curto -  filme de zumbis é muito divertido. Quatro sobreviventes de uma praga de mortos-vivos (decorrente de um vírus que foi a vaca louca e acabou se transformando no "zumbi louco") que dizimou praticamente toda a terra, têm de sobreviver.
Columbus (Jesse Eisenberg) - e nenhum dos personagens terá um nome, mas apenas serão chamados pelo nome das cidades de onde são ou qualquer outra cidade - é o primeiro sobrevivente mostrado, e ele logo de cara estabelece as regras para manter-se vivo nesse apocalipse. Por exemplo, tenha bom preparo físico, sempre dê dois golpes nos zumbis, evite banheiros, olhe o banco traseiro do carro, carregue pouca bagagem consigo, etc., com tais regras vai sobrevivendo tentando ir para o Oeste - onde segundo ouviu, não haveria zumbis.

No caminho, cruza com Tallahasse (Woody Harrelson), um tipo de cauboi anti-zumbis, que os mata com alguma graça, métodos pouco ortodoxos, com uma raiva incontida - que somente mais ao final se saberá decorrente da morte de seu pequeno filho. 
Com a desconfiança recíproca comum em uma época como esta (a solidariedade evidentemente está em baixa, e a sobrevivência individual é o que mais importa), eles começam a conviver e vão superando as diferenças, vendo que afinal ter alguém em quem confiar parece ser um bom caminho.
Logo depois eles cruzam com Emma Stone e Abigail Breslin (respectivamente Wichita e Little Rock), que inicialmente aplicam um golpe nos dois companheiros, roubando-lhe carro e armas. Elas também estão em busca de algum lugar sem zumbis, embora seu primeiro objetivo seja encontrar um parque de diversões para permitir alguma vida infantil a menor das irmãs. 
Como os caminhos possíveis para os vivos não são tantos assim, os seus rumos continuam a se cruzar, e depois de mais uma traição, os quatro percebem que terão de viver juntos para seguirem adiante, e começam a viver com alguma confiança e amizade.
Eles seguem até Hollywood, onde invadem a casa de Bill Murray, que imaginam morto, mas que vivo está, e que se fantasia/maquia de zumbi para poder continuar vivendo. Temos boas cenas de humor neste encontro, até o momento em que Bill dá um susto em Columbus e é por ele morto. Aqui na mansão hollywodiana se dá uma primeira aproximação entre o tímido (achei Jesse Eisenberg - taciturno, por exemplo, em A Rede Social -  com bom timing para a comédia) Columbus - que tem como sonho ter uma namorada - e Wichita
Ali, mais uma vez se separam, e só vão se encontrar no parque de diversões, em que uma legião de zumbis é atraída pelo fato de as meninas acenderem todas as luzes do parque, sendo depois salvas por Columbus e Talahasse. Todos deixam o parque juntos, são a "família" que resta um ao outro.
Filme divertido, que demonstra metaforicamente a solidão em que vivemos, cada um em seu próprio egoísmo, sem confiança algum no próximo. Ademais, há boas piadas sobre a vida moderna, a padronização de tudo, e boas cenas de "combate" entre humanos e zumbis.

Nota IMDB - 7.7. Não sei se é pra isso tudo, mas é boa diversão. Gostei. Vale a pena.

sábado, 9 de junho de 2012

CONTRA O TEMPO (2011), de DUNCAN JONES - 04.05.2012

Filme misto: policial/sci-fi em que Jake Gyllenhal (Cap. Colter Stevens) tem de prevenir um atentado à bomba em um trem nas cercanias de Chicago, e um subseqüente ataque em local ainda desconhecido. Stevens terá de descobrir quem é o terrorista e onde estão as bombas, possibilitando que o Exército aja antes de os fatos sucederem.
Para isso, ele é posto pelo Exército, através do programa virtual Source Code, no corpo de um professor - Sean Fentress, um simples professor de história passageiro do trem, que está acompanhado de Christina (Michelle Monaghan).


Numa trama um pouco mirabolante, e um pouco previsível - que o agente Stevens do mundo real está morto é bastante "adivinhável" desde logo - Stevens é mandado àquele corpo para que em 8 minutos descubra o que está havendo. 
Para convencê-lo a seguir na missão, dão-lhe a falsa explicação de que Sean Fentress está morto e sua memória antes do término dos impulsos nervosos dura oito minutos, e então o capitão pode agir nesse tempo.
Como esse tempo é pouco para que em apenas uma vez seja feita a investigação e salva a população de Chicago onde haverá uma segunda e mais letal bomba (e a cada oito minutos o trem explode reiniciando a investigação, mas sem que os dados da incursão anterior sejam esquecidos), ele é mandado repetidamente até que descubra as bombas (no trem e a próxima a ser explodida), e quem é o responsável pelos artefatos. 
Enquanto é mandado várias vezes ao trem, e ali, pouco a pouco, investiga e vai descobrindo o crime, ele começa a se envolver com Christina, começa a questionar o seu papel dentro da Source Code, o que houve com sua missão no Afeganistão (em que segundo ele estava até há pouco, lamenta sua relação difícil com seu pai (até dará tempo para um sentimentalismo, com musiquinha ao fundo e tudo, para uma conversa entre filho - embora se dizendo Sean Fentress - e pai). 
Quando lhe é dito que em verdade ele é que está morto, ele se concentra na missão, e a cumpre - sob a promessa de que as máquinas que o mantêm vivo sejam desligadas. 
Contudo, mesmo cumprida a missão, ele pedirá mais uma missão, à revelia do chefe do experimento Dr. Rutledge  (Jeffrey Wright), com a ajuda da militar que lidava diretamente com ele na operação do Source Code, Maj. Goodwin (Vera Farmiga), agora para salvar o trem, embora isso fosse em tese impossível, pois o Source Code apenas poderia alterar o futuro, nunca o passado - a explosão do trem já era fato consumado, Stevens apenas fora mandado ficticiamente a oito minutos do acidente só para evitar a segunda bomba.
Mas, eis que o cinema do fantástico - ou do absurdo - permite que Stevens (no corpo de Sean Fentress), com o conhecimento prévio decorrente de suas incursões prévias, se antecipe a todos os fatos, evite a explosão das bombas, prenda o terrorista, ligue para a polícia avisando dos planos deste, mande um e-mail para a Maj. Goodwin explicando tudo o que fez, ainda antes do início da real operação do SourceCode, explicando-lhe que ele conseguiu evitar inclusive a primeira explosão, e para felicidade geral da Nação, passados os 8 minutos, desta Sean Fentress (ou Stevens, ou o diabo que os parta) não morre, e passa a viver uma vida feliz com a mocinha. 


É um filme só de montagem. Um enredo mirabolante com uma montagem que permite essas viagens do cinema atual, com idas e voltas no futuro, e um filme que depois de visto, não deixa nada a ser lembrado.
Nota IMDB - 7,5. Bem menos. Dou um 5.