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quinta-feira, 7 de junho de 2012

THE PAWNBROKER - O HOMEM DO PREGO (1964), de SIDNEY LUMET - 08.04.2012

Um filmaço, com Rod Steiger no papel de um judeu sobrevivente de Auschwitz - Sol Nazerman - e que tem uma loja de penhores (o famoso "prego") em uma área decadente de Nova Iorque.
Amargurado, viu sua jovem esposa - Ruth - morta e prostituída durante a Guerra, há 25 anos, além de ter sofrido com a morte de seus filhos. Já no início do filme, sua cunhada, uma chata, o convida para ir ao Europa, secundada pelo seu marido que diz que a Europa tem um ar diferente, da para "cheirar" - smell - a diferença, e Sol diz que na verdade, aquilo "fedia" - stinks -, se ele bem se lembra. Puta fala.
Outra muito forte: Jesus, ao ver a tatuagem do campo de concentração pergunta se aquilo é de algum clube secreto. Sol diz que sim. Jesus quer saber como ingressar em tal clube. Resposta: - Andando sobre as águas.


Ao mesmo tempo em que remói sua condição de sobrevivente do campo de concentração que perdeu sua essência exatamente pelo que lhe ocorreu durante a guerra (não acredita em nada, não dá valor a ninguém, só ao dinheiro), vai trabalhando em sua loja de penhores sem nenhum entusiasmo, sem dar atenção aos clientes que o procuram, alheio à miséria humana que lhe é apresentada cotidianamente (o senhor idoso e pobre que penhora as coisas apenas para ter alguém com quem conversar, e que ao nada mais ter para vender lamenta que não mais poderá voltar à loja onde era tão maltratado é tocante), tratando a todos com indiferença. 
Por trás dessa aparente honradez  e firmeza de princípios, sua loja de penhores é fachada para um bandido do bairro lavar dinheiro. Irá descobrir com o tempo que o bandido é um explorador de mulheres, um cafetão (o que o levará à memória de sua mulher estuprada e à consciência do que anda fazendo). A loja de penhores é um fracasso; não dá lucro, logo apenas uma fachada para o cafetão.
Ele tem um ajudante latino - Jesus Ortiz (Jaime Sanchez) - um ex-pequeno-delinquente que tem como sonho aprender o ofício do penhor e adiante ter seu próprio negócio. Mas quando Sol faz um dos negócios de fachada do cafetão, recebendo 5 mil dólares, a cobiça lhe vem à cabeça - e ali permanece sem ser imediatamente posta em ação - não sem dar com a língua nos dentes e falar desse dinheiro para seus ex-comparsas, negando-se, neste primeiro momento, a praticar o assalto.


Uma das tramas laterais dá conta o relacionamento de Sol e Tessie, ex-esposa de Reuben (papel interpretado pelo pai do diretor Sidney Lumet), um amigo de Sol que morreu em sua frente, no campo de concentração, e há um amigo comum (o sogro de Tessie), à beira da morte, que de forma recorrente inflige culpa em Sol e Tessie. Ademais, diz que Sol é na verdade um morto-vivo, sem desejos, sem aspirações, sem sonhos, e que ainda por cima troca sonhos dos outros por um dólar. 


Há, ainda, a Sra. Marylin Birchfield (Geraldine Fitzgerald), que faz trabalhos comunitários e vai se aproximando de Nazerman, buscando algum consolo para sua vida também desgraçada -  perdeu seu amado marido - mas que ao comparar suas tragédias com as de Sol, recebe uma lição deste, com sua sociologia de araque, recebendo uma descompostura enorme. 


Essa é uma grande passagem do filme. O ajudante de Sol Nazermann pergunta como os judeus chegaram tal facilmente ao sucesso no comércio. Eis a resposta, que vale a pena ser assistida:

You people? Oh, let's see. Yeah. I see. I see, you... you want to learn the secret of our success, is that right? Alright I'll teach you. First of all you start off with a period of several thousand years, during which you have nothing to sustain you but a great bearded legend. Oh my friend you have no land to call your own, to grow food on or to hunt. You have nothing. You're never in one place long enough to have a geography or an army or a land myth. All you have is a little brain. A little brain and a great bearded legend to sustain you and convince you that you are special, even in poverty. But this little brain, that's the real key you see. With this little brain you go out and you buy a piece of cloth and you cut that cloth in two and you go and sell it for a penny more than you paid for it. Then you run right out and buy another piece of cloth, cut it into three pieces and sell it for three pennies profit. But, my friend, during that time you must never succumb to buying an extra piece of bread for the table or a toy for a child, no. You must immediately run out and get yourself a still larger piece cloth and and so you repeat this process over and over and suddenly you discover something. You have no longer any desire, any temptation to dig into the Earth to grow food or to gaze at a limitless land and call it your own, no, no. You just go on and on and on repeating this process over the centuries over and over and suddenly you make a grand discovery. You have a mercantile heritage! You are a merchant. You are known as a usurer, a man with secret resources, a witch, a pawnbroker, a sheenie, a makie and a kike!

A amargura, o niilismo de Nazerman, são trucidados pela conversa franca que tem com o cafetão Rodrigues (Brock Peters), após ver revelado o negócio de prostituição que este exerce, em cena memorável em que Steiger contracena com a namorada de Jesus, que vem lhe pedir dinheiro - tentando penhorar um presente que recebera de algum de seus clientes, para poder pagar suas dívidas com Rodrigues.
Sabendo dos negócios daquele a quem servia de fachada, vai tomar satisfações com Rodrigues, e este lhe dá uma lição, fala que Nazerman não poderá abandonar o negócio, terá de continuar servindo de fachada para os lucrativos negócios do cafetão, é humilhado pelo bandido. Em decorrência deste acontecimento, volta à loja de penhores completamente despedaçado, começa a pagar pelos bens mais do que eles valem, e vender os objetos penhorados por valores irrisórios.
Jesus se revolta com aquela postura perdulária de seu empregador, e tenta dissuadi-lo dessa prodigalidade, quando então Sol Nazerman o humilha profundamente. 
Tomado pela raiva, Jesus vai ao encontro de seus ex-companheiros de vagabundagem e crimes, e combina o assalto à loja de penhores, e durante o assalto, ordenam que Sol abra o cofre onde estão os cinco mil dólares, mas o velho não mais vê qualquer sentido em nada e diz que não vai dar o dinheiro, provavelmente esperando ser morto. Jesus impede que seu comparsa atire em Nazerman, puxando o braço do companheiro que, de forma não intencional, dispara contra o próprio Jesus. Jesus rasteja para fora da loja de penhores, e morre na calçada. À vista disso, Sol deixa sua loja, aberta, e sai vagando pelas ruas de Nova Iorque. 
Um grande filme, Deve ser visto. Imperdível.


Nota IMDB: 7,8. Daí para mais. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

SERPICO (1973), de SIDNEY LUMET - 02.09.2011

Frank Serpico, um policial recém ingresso na força de Nova Iorque (vivido como se pode ver por Al Pacino), logo percebe que onde quer que vá - e durante o filme ele passa por quatro ou cinco delegacias diferentes, os policiais são corruptos, e recebem dinheiro e várias outras formas de vantagens para "dar proteção" a comerciantes, o que já consistia uma prática por demais usual, e não fazer parte desse esquema o deixa isolado e em perigo.
Muitos tentam demovê-lo dessa conduta honesta, pois ela coloca em risco os próprios policias corrompíveis, que ficam com medo de um haver um tira honesto no meio deles.
Essa postura afrontosa de Serpico o leva a mudar de delegacia, quase sempre a seu pedido, primeiro indo para o setor de identificação criminal - onde em tese não haveria corrupção, depois passa a trabalhar como policial à paisana, a P2 brasileira, em que em tese não precisaria estar tão ligado à burocracia policial e mais afastados dos esquemas, mas os episódios de corrupção não diminuem, nem a pressão que os demais exercem sobre ele para que ele aceite dinheiro.
Serpico é um policial pouco ortodoxo no seu modo de ser, é apaixonado, é uma pessoa sedutora, vive com cabelos compridos, barba espessa, brinco, ama ballet, tem namoradas e nas horas de folga vive como se não fosse um policial, mas no cumprimento de seu mister é inflexível.
Ele tenta desbaratar a corrupção por dentro da instituição, primeiro comunicando a seus superiores sobre o que vem ocorrendo, e estes lhe prometendo providências, mas nada realmente é feito, por anos, e a pressão sobre Serpico aumentando (bem como sua paranóia persecutória, de que todos estavam a persegui-lo). Tenta contato com os níveis mais altos da hierarquia policial, com o gabinete do prefeito, mas nada dá resultados, sempre com um antigo colega de academia, que rapidamente se tornou detetive (por influência política).
Somente quando vazam a história para o New York Times é que as coisas começam a acontecer, pois é instaurada uma comissão investigativa que ao final vai redundar em uma grande limpeza na polícia novaiorquina, mas durante as investigações secretas Serpico continua trabalhando, e estas se arrastam porque as provas não são contundentes (ao menos para os investigadores), que gostariam que Serpico tivesse consigo um grampo para confirmar o eventual testemunho, o que é impossível dada a desconfiança de seus colegas. Frank inclusive reluta por muito tempo em testemunhar, e aparentemente somente após o atentado abaixo narrado é que decide contar tudo à comissão.
Nesse ínterim, para Serpico, as coisas não ficaram tão fáceis assim (sobre a verdadeira história de Frank Serpico LINK AQUI, no NYT), e quando ele está na delegacia de narcóticos - em que os subornos são muito mais altos e portanto a honestidade traz grandes prejuízos aos colegas corruptos - em uma batida contra um traficante de heroína, ele é deixado na mão por seus "colegas" - um deles F. Murray Abraham (o Salieri em Amadeus, ganhador do Oscar de melhor ator), que na abordagem ao traficante, em um apartamento, fica preso na porta, lutando contra o traficante, e seus colegas que deveriam auxiliá-lo no arrombamento nada fazem, deixando Serpico levar um tiro na cara, que não o mata, mas o deixa surdo de um ouvido e com um problema na perna.
No filme ele é socorrido pelos policiais, mas na vida real estes sequer se dignaram a ajudá-lo, e um vizinho idoso e uma viatura que não o reconheceu - pois estava à paisana, socorreram-no, levando ao hospital, em que receberá o distintivo prateado, tornando-se detetive (mas sem efetivamente voltar a trabalhar).
Serpico migrará para a Europa, onde ficará por muitos anos.
Nota IMDB - 7,8. Acho que daria um pouco menos, um 7. Um filme que deve ter tido muito maior repercussão quando do lançamento, dois anos após os acontecimentos.