quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A VIDA ÍNTIMA DE SHERLOCK HOLMES (1970) - de BILLY WILDER - 02.11.2011

O filme começa 50 anos após a morte de Watson (Colin Blakely), dentro de um banco, em que se abre seu baú que somente após esse tempo deveria ter o conteúdo revelado, e ali dentro se contêm os segredos, a vida privada de Sherlock Holmes.

Volta-se então a 1887, quando Holmes (vivido por Robert Stephens) se vê aborrecido, sem nenhum caso interessante, e esse tédio faz com que ele exercite seu vício cocainômano..
Dois casos que lhe são apresentados são rejeitados por irrelevantes, mas que assumirão importância adiante. Primeiro o sumiço de 6 anões de circo, rapidamente dada por banal por Holmes, haja vista que a recompensa seria muito pequena para encontrá-los, deduzindo que era apenas uma questão de avareza do dono do circo, e os pequenos resolveram encontrar outro emprego; e o desejo de uma grande bailarina russa em ter um filho, com Sherlock devendo ser o pai recebendo de paga um Stradivarius, para que a criança fosse bela como a bailarina e inteligente como Sherlock, não sem antes ter sido explicado que o detetive não era a primeira opção (foram considerados Tolstói - velho, Nietzche - amalucado e Tchaikovski - homossexual, muito boa a tirada, esses gênios estavam vivos a tal tempo). Sherlock rejeita o pedido, também dizendo-se homossexual, e que vivia com Watson.

Então surge o caso que deveria ser desvendado: aparece uma francesa - Gabrielle Valadon, vivida por Genevieve Page - desmemoriada na porta do 221-B de Baker Street. Ao passo que ela vai recobrando a memória, o problema é posto. Seu marido (Eugene) inventou uma bomba de ar - um compressor podemos dizer - e trabalhava para a Jonah (Jonas) Limited e a esposa acredita que ele tenha sido morto ou seqüestrado.
A investigação vai tomando corpo ao se descobrir que não existe a empresa, e no endereço em que as cartas entre Eugene e Gabrielle eram trocadas, também nada havia, exceto canários, uma velha paraplégica, um jornal que remete à Inverness, na Escócia.
Em tal ponto, Mycroft Holmes (que participa de um clube de cavalheiros que é uma fachada para um braço do serviço secreto e do Ministério das Relações Exteriores da Inglaterra), irmão de Sherlock, vivido por uma careca e quase irreconhecível Christopher Lee - o Drácula dos anos 60 e 70 - chama o seu irmão detetive e ordena que ele pare com suas investigações, ordem que, evidentemente, é desobedecida.

Indo à Escócia, ele passa a investigar e logo encontra um castelo suspeito, e eles começam a ver o monstro do Lago Ness. Indo ao lago, Holmes logo pode descobrir que o monstro é alguma engenhoca mecânica submersa, e o pescoço e cabeça do monstro são apenas para disfarçar o aparelho. Nesse ínterim, há passagens em que descobrimos que Gabrielle não é quem parece ser, e que ela se comunica com "monges trapistas", em verdade espiões disfarçados.
Descobrem ainda o nome de um cemitério - com base nas pistas obtidas ainda na Inglaterra - em que presenciam um enterro de mortos não identificados, e pela presença de quatro anões podem descobrir que dois dos mortos são anões, e o outro, um adulto de estatura normal, e ao escavarem encontram Eugene e três canários mortos, estes descoloridos.

Quando Holmes está prestes a desvender o caso, Mycroft manda chamá-lo para revelar o que é o monstro, na verdade um pequeno submarino em que a bomba de ar de Valladon permitia permanecer bastante tempo sob a água, pondo a Inglaterra em vatagem contra seus inimigos. Os canários são usados para medir vazamentos de gases tóxicos (tão logo o ambiente fique tóxico, os canários morrem poupando os homens), e os tripulantes são os tais anões de circo.
Ademais, revela que Gabrielle, em verdade, é uma espiã alemã que conseguiu enganar Sherlock completamente, e que os monges trapistas eram também alemães prontos para roubar o submarino.

A Rainha Vitória é chamada para batizar o submarino HMS (Her Majesty Ship) Jonah - no livro bíblico Jonas passou três dias e três noites dentro de uma baleia, o que revela que Jonas era o nome do projeto secreto governamental para qual Eugene trabalhava. Mas ela se recusa a dar seguimento ao projeto militar, pois isso vai contra os princípios ingleses, de atacar sem avisar, de afundar navios à socapa. Ainda diz que o Imperador Wilhelm, da Alemanha, não será problema, pois é seu parente distante, e uma carta bastará para trazê-lo ao seu juízo - o que se verá, em anos futuros, que acreditar na Alemanha  terá sido um grande erro de avaliação.

Então Holmes volta para onde está Gabrielle, faz esta confessar, passa uma mensagem errada para os demais espiões alemães, que conseguirão roubar o submarino, mas este afundará, matando-os.
Holmes está mais ou menos envolvido emocionalmente com a espiã, então intercede para que esta não seja presa mas trocada por um espião inglês que está em poder dos alemães.
Um ano depois, Holmes recebe uma carta daquele clube de cavalheiros (o serviço secreto) dando notícia de que sua "amada" foi morta no Japão, e durante o período em que lá esteve, usou o nome de Aschcroft - nome sob o qual Holmes e a espiã usaram para se disfarçar na Escócia.
Abatido, ele pede a Watson a sua seringa para injetar a cocaína e suportar a perda. Ele entra em seu escritório e fecha a porta para se dopar.

Nota IMDB - 7,3. Talvez um pouco menos, mas um bom filme, bastante divertido.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

OS OUTROS CARAS (2010), de ADMA MCKAY - 13.10.2011

Este filme, para uma comédia despretensiosa, tem um grande elenco. Mark Wahlbert, Eva Mendes, Will Farrell (Allen Gamble), Samuel L. Jackson, Michael Keaton, vários em papéis pequenos.
O início do filme é bastante bom, as piadas boas. Os dois tiras destrutivos, espalhafatosos e famosos morrem, e então, uma dupla de policiais que não se dá bem entre si, com um querendo ser operacional, trabalhar na rua, e o outro, um burocrata, preocupado com números, com interesses em delitos de posturas urbanas, se deparam com a possibilidade de estar havendo um grande golpe financeiro

Will Farrell (que diga-se de passagem era um grande comediante no SNL, mas em seus filmes não é tão bom assim - de bom mesmo só vi o seu papel secundário em "Penetras Bons de Bico" - é um idiota, mas sempre se dá bem com belas mulheres - foi um cafetão na universidade - e é casado com Eva Mendes.
Wahlberg (Terry Hoitz), sempre angustiado, tem problemas com sua namorada Francine, e não tem mais credibilidade na polícia porque, há algum tempo, dera um tiro em Derek Jeter, jogador de beisebol dos Yankees.
Assim, sem respaldo do comando da polícia (até porque estavam mexendo com grandes interesses financeiros), seguem a trilha do golpe financeiro e impedem um golpe de 32 bilhões de reais contra o fundo de pensão da polícia, que iria repassar o dinheiro a um investidor que teve grandes perdas financeiras. Eles só conseguem o apoi da chefia policial muito ao final, e tendo que agir sem que desconfiem que eles continuam no caso de que foram afastados.
O filme faz referências à crise bancária americana (depois de frustrado o golpe a tal financeira consegue auxílio financeiro do governo americano, pois são "too big to fail", e menciona que no final, os heróis não são aqueles que estão sempre nas páginas dos jornais, que gostam de aparecer, mas aqueles que simplesmente fazem, de forma anônima, seu trabalho.
Nota IMDB - 6,6. Boa nota, filme divertido, nada excepcional, mas vale a pena.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

AMORES DE ESTUDANTE (COLLEGE - 1927), de JAMES HORNE e BUSTER KEATON, 07.10.2011

Como filme mudo, a imagem é tudo. O filme inicia na formatura de uma turma de escola secundária. Buster Keaton é Ronald, um bom estudante secundarista, o melhor da classe, mas pobre e sem pendores para as práticas desportivas e na cerimônia de formatura faz um discurso anti-esporte, dizendo que os esportistas não acrescentam nada de bom ao mundo.
A estudante de quem Keaton gosta, com dinheiro, vai para a Universidade (College) e Keaton, em princípio não tem dinheiro para acompanhá-la. Além disso, ela lhe diz que só mudará sua opinião a respeito dele desde que ele mude sua opinião sobre os esportistas. Seu adversário pela mocinha do filme é um latagão esportista.
Quando Keaton chega à faculdade, ele tem todo um arsenal de equipamentos esportivos, e tenta praticar atletismo, beisebol, e nada dá certo, é um fracasso retumbante.
Finalmente ele é posto na equipe de remo, por ordem do reitor, para ser o timoneiro (cuida do leme e do ritmo das remadas), mas é prontamente sabotado por todos, que o fazem acreditar que faz parte do time, mas na hora da regata ele será posto de lado.
A equipe de remo do Clayton College depende da vitória para que a equipe não seja desativada, e no dia da competição, o técnico manda colocar sonífero no café de Ronald. Há a troca de xícaras e aquele que realmente seria o timoneiro  é quem acaba adormecendo, vendo-se o técnico obrigado a colocar Ronald na regata.
Tudo começa bem, até que o leme se desencaixa. Keaton então amarra o leme às suas costas, entra na água, e conduz sua equipe à vitória.
Ao sair da água, todos seus companheiros recebem os cumprimentos de suas namoradas, amigos, etc., e Ronald está sozinho, porque a sua amada (Anne Cornwall) está encarcerada pelo seu rival atlético, sem que ele saiba.
Num momento de distração do "seqüestrador", a moça consegue telefonar para Ronald que então, superando todas suas desastradas atuações como atleta, corre numa velocidade absurda, salta sobre barreiras, salta em altura, salta com vara, dentro do quarto lança objetos como se fossem disco ou peso, se defende com um remo como se jogasse beisebol, ou seja, sendo um perfeito atleta em todas as modalidades em que retumbantemente fracassara, e assim, conquistando a sua amada.
Casam-se, e numa bela elipse temporal, mostram o casamento, o casal com filhos pequenos, eles velhinhos, e seus túmulos. Fim.
O filme, por ser mudo, é obrigado a ser muito bom visualmente. As gags, as confusões de Keaton, no dia da formatura, pobre, com um terninho vagabundo encolhendo por causa da chuva, a suas desventuras como barman, suas trapalhadas na pista de atletismo, no jogo de beisebol e na regata, garantem a diversão.
Nota IMDB 7,2. Um pouco menos, talvez.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A MARCA DA FORCA (1968), de TED POST - 05.10.2011

Clint Eastwood (Jed Cooper) toca o gado que aparentemente comprou de um fazendeiro quando é interceptado por 9 ou 10 cavaleiros que o acusam de furto desse gado e morte do dono das reses. Após um julgamento sumário, em que apenas um documento é analisado e a descrição do vendedor não bater com a do real vendedor do gado (Johanson), resolvem enforcá-lo, mesmo após Jed dizer a eles que fora um homem da lei e que nada havia de errado com a compra do gado.
Pendurado à árvore pela corda, Jed é salvo por um homem da lei (marshall Bliss) que diz que se for inocente, isso será reconhecido. Se for culpado, terão de enforcá-lo de novo. Chegando ao fórum, logo sua história é averiguada e ele é posto em liberdade pelo Juiz Fenton.
Quando ele menciona ao magistrado que fará justiça com as próprias mãos, o juiz diz que não deve fazê-lo, e então oferece a ele o cargo de marshall, para que ele, assim, dentro da lei, possa capturar aqueles que tentaram matá-lo na forca.
Ele começa a perseguição, consegue prender o primeiro, o segundo se entrega, mata um terceiro.
Nesse ínterim, tem de se desviar um pouco de sua meta, pois o trabalho de auxiliar de campo do juiz tem suas particularidades. Nesse desvio, ele prende três ladrões de gado, que no furto, também mataram os donos do gado, mas o assassinato seria só culpa de um, ou outros dois eram apenas garotos. Jed tenta intervir em favor deles no julgamento, mas não logra sucesso em convencer o juiz (e com ele discute), e todos são enforcados.
No dia da execução, alguns dos integrantes do linchamento contra Jed, ainda à solta, cometem outro atentando, a tiros, mas ele novamente escapa.
Após se recuperar, ele vai atrás destes e os mata. Perdoa o que foi preso (Jenkins), pois no momento do linchamento foi contra o enforcamento, e dá sua missão por encerrada - o que é fazer justiça, afinal? é a pergunta que parece passar por sua cabeça.
Vai falar com o juiz para explicar sua decisão, mas este, com um discurso interessante sobre culpas, julgamentos, perdões, valores, fala de seu emprego como juiz de um território (o lugar ainda não era Estado da União americana), em que é a única lei do lugar, não há tribunais de recursos, não há um poder Executivo estabelecido, e que por muitas vezes torcia para que houvesse alguém que reparasse seus eventuais erros, reformasse suas decisões, enfim, desse a segurança que o Estado deve dar a seus indivíduos, pede que Jed continue na força pública e que o ajude a tornar aquele pedaço de terra sem lei um Estado.
Jed, para isso, exige do juiz o perdão imediato a Jenkins, com o que o concorda o Juiz Fenton, desde que continue em seu ofício de marshal. Trato feito, o Juiz entrega a Jed os dois mandados de prisão contra os últimos integrantes do bando do enforcamento, e Jed prosseguirá em sua cruzada - e no trabalho de marshall.

Nota IMDB: 6,9. Vale mais. Um 7,5.

A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (1960), de WOLF RILLA - 04.10.2011

O filme já começa direto, mostrando toda a paralisação, como se em transe, em coma, de toda uma cidade que até então funcionava normalmente. Gordon Zellaby (George Sanders) fala ao telefone com seu cunhado quando, de repente, simplesmente apaga, adormecido. O mesmo houve com todos os habitantes e animais da cidade.
Midwich, na Inglaterra, é esse lugar, que parece ter sido afetado em seu território, como se uma divisa separasse os que adormeceram, ou desmaiaram, e os que ficaram acordados.
Só então aparece o título do filme e os créditos iniciais.
De repente, sem mais nem menos, todos acordam e passam a viver, num primeiro momento, como se nada houvesse acontecido. Foram umas poucas horas, menos de 4 horas, de paralisia.
Então, algum tempo depois, descobre-se que todas as mulheres em idade fértil estão grávidas (algumas inexplicavelmente porque virgens ou distantes de seus maridos), exatamente a contar daquele estranho evento - inclusive a mulher de Gordon, Anthea (Barbara Shelley) e, finalmente, quando nascem as crianças, todas tem cabelos descoloridos e olhos brilhantes.
As crianças se desenvolvem em velocidade espantosa, crescem muito rápido, têm inteligência bem acima do normal, e aparentemente com poderes psíquicos, telepáticos. O filho de Gordon e Anthea, David (Martin Stephens, o mesmo que faz Miles em "Os Inocentes", já resenhado aqui nesse blog) parece ser o líder do bando.
Uma reunião de governo tenta decidir o que fazer com as crianças, aparentemente muito poderosas, de má índole, e cujo futuro não se sabe precisar se não poderiam subjugar os demais.
Chegam a um acordo de dar a tutela das crianças, por um ano, a Gordon, que é cientista, que pretende educá-las, dado o seu grande potencial intelectual.
As crianças conseguem ler pensamentos, logo conseguem controlar a mente dos outros, aprender o que eles podem ensinar, mas se recusam a dar qualquer explicação sobre sua origem, seus objetivos.
Quando passam a matar pessoas, decide-se que seria hora de agir contra as crianças, mas uma intervenção militar não adiantaria, pois se as crianças soubessem dos planos, elas poderiam modificar a conduta dos soldados.
As crianças percebem que estão em perigo, que vão tentar exterminá-los, e por isso pedem a Gordon que providencie vários lugares para que as crianças se espalhem e fiquem a salvo, para, mais tarde, fazerem grandes coisas, perpetuarem seus planos.
Gordon cria um plano para exterminar as crianças, arma uma bomba e vai dar sua lição habitual às crianças, com o pensamento em um muro de pedra, para evitar que as crianças descubram seu intento. A cena em que as crianças tentam desvender o que está por trás do pensamento do muro, e este vai ruindo, é muito boa. Acaba que as crianças não conseguem, a tempo, descobrir o intento de Gordon, e há a explosão. Esse é o filme.
O filme me parece só um filme de terror (pouco), de (bastante) ficção científica. Não quero procurar significados políticos. Há menções no filme a um outro grupo de crianças da mesma estirpe que estariam na União Soviética e que foram mortas por um ataque nuclear surpresa, para que as crianças não pudessem saber o que ia lhes acontecer e reagir. Poderia assim haver alguma pretensão de tratar da guerra fria, sobre o medo do alienígena, sobre o perigo que o outro representa, sobre a infiltração de agentes perigosos em vários lugares (o intento das crianças em serem mandadas para diferentes lugares para fugirem dos riscos e depois se reunirem) tudo isso é possível, mas me ative à ficção científica, que é bastante boa.
O filme poderia chamar a Aldeia dos Malditos, outra tradução para "The Village of the damned" e até fica a dúvida de quem seriam os amaldiçoados, se as crianças, ou aqueles que tiveram de conviver com elas.
Nota IMDB: 7,3. É por aí, bom filme.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ENTERRADO VIVO (2010), de RODRIGO CORTÉS - 02.10.2011

Este filme de ótima crítica, a que por alguma razão não fui ver no cinema, passou no TC Pipoca, dublado mesmo, e resolvi assisti-lo, preguiçosamente, sem legenda e em português.
Um cara (Paul Conroy, vivido por Ryan Reynolds) - casado - dentro de um caixão, sem saber porque, aparentemente. Um isqueiro, um celular com os letreiros em árabe e bateria pela metade, deixado dentro do caixão. Trata-se de um motorista civil capturado no Iraque, e que apenas com o celular terá de se virar.
Ele faz ligações interncionais para os EUA, mas não consegue falar com a família e, inicialmente, nem a polícia nem o FBI lhe dão muita atenção.
Ele consegue contato com um árabe (número nas ligações efetuadas do telefone) que exige 5 milhões de dólares para libertá-lo. Aos poucos, consegue contato com autoridades americanas, que começam a buscá-lo.
Os terroristas pedem para que Conroy grave um vídeo pedindo o resgate. Ele reltua, por sugestaão do funcionário do Departamento de Estado, mas ao lhe ser enviada uma foto com alaguém sequestrado (provavelmente uma colega de trabalho também sequestrada), ele cede e faz o vídeo. Posteriormente ele recebe o vídeo em que sua colega é morta.
Dentro de seu caixão ele recebe uma ligação de sua contratante (que sabe do seqüestro), demitindo-o  por suposto envolvimento com uma colega de trabalho, retroativamente a uma hora desse mesmo dia antes de ter havido o seqüestro.
O filme vai se desenrolando nesse vai e vem em conversas entre Paul, o burocrata, o terrorista, e as tentativas de resgate. Paul é levado a cortar um dedo, consegue falar com sua esposa, e recebe finalmente a notícia de que um xiita iraquiano que sabe onde foi enterrado um americano. E começa a escavação, quando... Eu sempre falo tudo que acontece nos filmes, mas esse perderia completamente a graça se alguém ler o blog antes de assistir ao filme.
Um filme todo ele dentro de um caixão, um só ator, alguns apetrechos (celular, lanterna, isqueiro, canivete), mas que prende a atenção do início ao fim. Uma tensão sempre presente, e por vezes claustrofóbico, angustiante. Vale a pena.
Nota IMDB - 7,2. É por aí, talvez um pouquinho menos.

domingo, 2 de outubro de 2011

A VILA (2004), de M. NIGHT SHYAMALAN - 24.09.2011

Este filme de do Shyamalan faz parte de seus maiores sucessos, junto a "O Sexto Sentido", "Os Outros", e "Sinais", tendo sua carreira decaído - de acordo com a crítica que me fez não ver tais filmes (falha minha, reconheço) - com A Dama na Água, O Último Mestre do Ar e Fim dos Tempos. A película inicia com o enterro de uma criança, filha de um dos próceres de uma comunidade ambientada no Século XVIII ou XIX, o que se depreende pelas roupas, pelos costumes, pelas construções.
Com a morte de Daniel, Lucius Hunt/Joaquim Phoenix (que poderíamos dizer que Lúcio é aquele que tem luz, e Hunt - o que caça, o que busca a luz) pede ao Conselho de Notáveis que dirige a vila (the elders) que lhe permita atravessar a floresta para buscar remédios que pudessem evitar mortes como a de Daniel. Tal pedido é negado pois, segundo as regras do local, é proibido adentrar na floresta pois ali vivem "aqueles cujo nome não se diz", monstros que deixam a comunidade isolada das cidades, e que já teriam matado integrantes da vila - o pai de Lucius, para citar um.
Os Elders da comunidade a dirigem firmemente, mas têm segredos mantidos em relação aos demais habitantes da vila e cada um, por exemplo, tem um baú lacrado, a que aos outros também não têm acesso.
A co-protagonista é Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), filha do principal líder da comunidade (Edward Walker, vivido por Willian Hurt), cega, mas que vê a aura das pessoas, sendo sempre protegida por Lucius. Ela vive próxima a Noah Percy (Adrien Brody), um rapaz com problemas mentais, aparentemente inocente, muito afeito a ela.
Quando Ivy declara seu amor por Lucius, e eles resolvem se casar, Noah esfaqueia Lucius, e este fica entre a vida e a morte, sendo necessário, para que a infecção que o acomete regrida, que se vá até a cidade para buscar remédios.
O problema é que a comunidade fez um pacto de não deixarem o lugarejo, não retornarem a cidade em hipótese alguma, mas Ivy insiste que deve ir buscar remédios para tentar salvar seu futuro marido, sendo autorizada por seu pai Edward (que foi repreendido por seus pares por essa decisão), que então resolve contar à sua filha a primeira farsa perpetrada pela comunidade: não há monstro algum, "aqueles cujo nome não se pronuncia" são na verdade um ou outro dos chefes da comunidade fantasiados (e ele mostra a fantasia), e que tudo isso foi engendrado para proteger a comunidade das cidades, para evitar o contato com o mundo exterior à vila, pois todos que lá viveram tiveram grandes perdas, grandes frustrações no contato com as cidades, com as pessoas das cidades.
Então Ivy parte rumo à cidade, acompanhada por dois outros jovens, que logo a abandonam por medo, ela é acossada por um dos monstros, que ela consegue matar - e este era o "inocente" Noah, disfarçado.
Ivy chega, então, a um muro, a fronteira entre A Vila e as cidades, e ao mesmo tempo em que ela ultrapassa a fronteira, seu pai está abrindo um daqueles baús dos líderes da comunidade, e, concomitantemente, em ótima montagem, somos transportados para o século XX (eis a segunda farsa, pra mim criada soberbamente, pois aquela primeira revelação parecia já ter trazido à tona toda a verdade necessária para justificar o isolamento da comunidade), lá pelas fotos mostrando o grupo dos anciões com suas fotos da década de 70, e a explicação de suas perdas (morte violenta de parentes, inclusive o pai de Lucius, que teria sido morto, segundo a versão "oficial", na mata), e a razão para se isolarem do mundo, enquanto Ivy encontra um patrulheiro do Parque Walker (de propriedade da família de Edward Walker, o líder do grupo e ex-professor de história, e filho de um ex-milionário assassinado) que conversa com Ivy, arranja-lhe os remédios, compreende a necessidade de se manter em silêncio sobre o que presenciou - embora não saiba bem porque e nem o quê presenciou. O chefe do posto de guarda diz a ele, a propósito, que não fale nada a respeito do que houve - em mensagem dúbia - "não fale a ninguém sobre o encontro", ou "não fale à pessoa que encontrou sobre a reserva" florestal.
Voltanto à vila, com os remédios para tratamento de Lucius, logo se revela que Ivy teria matado um monstro - Noah, portanto. Edward então faz um discurso a seus pares, declarando que a morte de Noah/monstro "provava" a história que protegia a "realidade" da Vila, e ele propõe, apesar das perdas, a continuidade da aldeia, com o que assentem todos os elders, e a Vila está "salva".

O filme gera vários questionamentos interessantes: a violência, onde ela está, na cidade, no meio que nos circunda, ou dentro da cada pessoa? Quem é inocente, quem não é? O "inocente" Noah, deficiente mental, que mesmo assim tenta matar Lucius, uma pessoa muito preocupada com o bem-estar da comunidade? Adianta se isolar do mundo, se o mal necessariamente não está nele, mas pode estar em cada um? A nostalgia do que foi, sempre um tempo idealizado, encontraria razão de ser nos fatos?

NOTA IMDB: 6,5. Muito abaixo do que realmente vale. Pelo menos um 7,5.

O HOMEM DOS OLHOS FRIOS (THE TIN STAR) - 1953, de ANTHONY MANN - 26.09.2011-02.10.2011

Este filme de Anthony Mann (Winchester 73, El Cid), estrelado por Henry Fonda (Morg Hickman) começa muito bem, como Fonda chegando a uma cidade que preza a ordem, trazendo um morto no lombo de seu cavalo - um bandido, para cobrar a recompensa pela morte.
A cidade é moralista e ordeira, não quer mortos, não quer caçadores de recompensas, toda a cidade acompanha a chegada de Hickman, recriminando-o, mas resolve pagá-lo, só que há certa burocracia e o pagamento levará alguns dias.
Uma bonita fotografia em preto e branco , uma cidade cenográfica de Velho Oeste muito bem construída, e vê-se que Mann domina a câmera, com um travelling impressionante, já no início.
Nesses dias que Hickman precisa esperar, descobre-se que o antigo xerife foi morto e Anthony Perkins - não em grande forma - encarna o novo xerife - Ben Owens - assumindo a "tin star" que ninguém na cidade quis. Perkins é inexperiente, medroso, atira mal, mas quer ser xerife e fica envaidecido com isso - ganha respeito social. 
Ben se mete num duelo contra Bart Bogardus, que pretendia ser o xerife - mas como era um homem perigoso não é eleito - e Hickman o salva, disparando contra Bogardus.
Hickman então revela a Owens que fora xerife uma vez, mas por necessidade financeira - precisou dinheiro para pagar um tratamento de saúde para sua mulher e filho, mas seu salário não era suficiente. Além disso, a comunidade não quis ajudá-lo em sua necessidade, logo ele que sempre protegera seus concidadãos.
Então, havia recompensa por um foragido. Ele o caçou, o matou, recebeu a recompensa, mas não a tempo de salvar sua família. A estrela de xerife não mais fazia sentido para Morg Hickman.
Lateralmente, Morg conhece uma viúva - Betsy Palmer, vivendo Nona Mayfield -  de um índio (assassinado por brancos, havia um preconceito imenso contra índios na época) e o filho mestiço destes - Kip, discriminados na cidade, e que só tem onde morar porque o médico, Dr. Doc McCord, lhes forneceu uma casa. Morgan fica hospedado na casa dessa viúva, depois de não conseguir qualquer hospedagem na cidade.

Nas estradas fora da cidade, há um assalto a uma diligência, em que um homem é morto, e eles apenas sabem dizer, ao chegar à cidade, que um dos assaltantes foi baleado. O xerife arma um pequeno grupo para caçar os assaltantes, mas não os encontra num primeiro momento.
Ao mesmo tempo, e no dia em que completaria 75 anos de idade, Dr. McCord é chamado para atender a um parto, e no caminho de volta à cidade, é interceptado para atender um homem que se descobre ser aquele que foi baleado em tiroteio com os ocupantes da diligência.
Quando os bandidos (Zach e Ed MacGaffey, um deles vivido por um jovem Lee Van Cleef)  percebem que McCord os identificou, resolvem matar o médico, gerando revolta na população - que pode descobrir o nome do assassinos pela caderneta de anotações médicas do doutor - inclusive fazendo os próceres da sociedade, contra tudo que aquilo acreditavam, estipular uma recompensa pela captura dos dois procurados - vivos ou mortos (e isso quase sempre significa mortos, ensina Morg Hickman).
Bogardus monta então um súcia para caçar os irmãos MacGaffey, ao passo que Ben é aconselhado por Morg a, se realmente quer que os bandidos tenham um julgamento justo, e se quiser afirmar sua autoridade de xerife, a capturá-los por si só.
Com a ajuda imprescindível de Morg, ele consegue (na verdade Fonda é que faz todo o serviço) trazer os bandidos vivos.
A malta de Bogardus então resolve que fará justiça rápida - linchamento e enforcamento - e mais uma vez Ben terá de resistir, impedindo que os presos sejam retirados da delegacia, vencendo então Bogardus em um duelo, e o todo o restante da corja de Bogardus se resigna. Pronto, finalmente Ben Owens é o xerife da localidade.
Morg já pode deixar a cidade, levando consigo a viúva e o pequeno filho mestiço desta, em rumo a uma nova cidade, em que promete voltar a ser xerife, pois "aprendeu" com Ben que não se deve desistir facilmente das coisas.

Nota IMDB: 7,4. Acho que é isso mesmo. Um bom faroeste, rápido, direto, história centrada, final em que o bem vence, edificante. Vale a pena.

sábado, 1 de outubro de 2011

O LIVRO DE ELI (2010), de ALBERT E ALLEN HUGHES, 01.10.2011

Em um mundo pós-apocalíptico, com poucos sobreviventes na terra, as pessoas se digladiam pelo pouco de bens, comida, vida que restou. Eli tem em seu poder um livro - que não se sabe de início para que serve. E se você não quiser saber, não leia o resto do texto, só posso dizer que o filme é ruim, para mim. Dois diretores pra fazer isso aí é de assustar.

Ele ainda é uma espécie de Jiraya, um ninja que luta muito bem - e aparentemente é imune aos tiros e ferimentos, provavelmente porque seria divinamente protegido.
Quando ele chega a uma cidade controlada por Carnegie (Gary Oldman), que a controla através da força, Carnegie que tem uma busca incessante por um certo livro, descobre que Eli tem esse livro - a Bíblia, e que com tal livro ele poderia conquistar não só pela força, mas também corações e mentes com as palavras certas, as palavras do livro.
Assim, se Carnegie quer deixar de mandar apenas naquela cidadezinha e mandar no mundo, ele precisa do Livro que Eli se recusa a entregar.
Eli deixa a cidade e os capangas de Carnegie passam a persegui-lo, até conseguirem a Bíblia, mas esta é feita em braille e o bandido não tem como decifar seu conteúdo, ao passo que Eli pode lê-lo e memorizá-lo, para ser transcrito no Oeste, onde a civilização recomeçará - Em São Francisco, para ser exato, e mais exatamente, em Alcatraz.
Eli é cego, numa pegadinha horrível, desses twists que revoltam.
A fotografia cinzenta, com sombras, dando com essa imagem a impressão de um mundo em decomposição, que para mim é apenas efeito visual, sem significado e sem ganho estético relevante.
A cegueira da personagem de Denzel é aparentemente indicada em alguns pontos do filme, mas se é, é de forma tão sutil, diria imperceptível. Só vamos saber quando aparece a bíblia em braille e, quando, finalmente, se dá um close quase pornográfico nos olhos de Eli, para percebermos seus olhos cegos.
Mila Kunis com um visual hippie-chique e com um Ray-Ban última moda num mundo pós-apocalipse não convence nada. O filme é ruim, penso eu.
NOTA IMDB - 6,8. Vale menos, bem menos. um 4 ou 5.

sábado, 24 de setembro de 2011

INVICTUS (2009), de CLINT EASTWOOD - 21.09.2011

Esse filme de Clint Eastwood narra a saga do time de rúgbi sul-africano, os Springbok, que um ano antes da competição mundial, e que decorrido esse tempo conquista a Copa do Mundo, muito por inspiração de Nelson Mandela.A história narra o esforço de Mandela para pacificar o país logo após a extinção do Apartheid e de sua eleição como Presidente, utilizando o time de rúgbi como um amálgama da expressão nacional, e evitando revanchismo dos negros pelos muitos anos de sofrimento sob o Apartheid.
Em breve retrospectiva mostra-se a libertação de Mandela, a sua eleição para a Presidência da República, o ceticismo dos brancos com a capacidade de Mandela governar e com a pacificação pretendida pelo presidente negro.
Igualmente, a má fase por que passa o time de rúgbi, capitaneado por Piennar (Matt Damon).
Mandela contém a ânsia revanchista (mostra-se, por exemplo, que os negros pretendiam aposentar o nome Springboks e as cores verde e dourado do uniforme, pois tudo isto remetia ao Apartheid), pelo bem da nação, do futuro democrático do país, para evitar talvez uma guerra civil.
Nesse intento de unir o país, ele chama Pienaar para uma conversa, diz que o time precisa de inspiração.
Vê-se então uma diferença na postura da equipe, uma aproximação com a população negra (rúgbi era para plateias brancas, futebol para os negros), uma equipe que passa a realmente representar o país, e não apenas eles mesmos. Visitam a prisão de Mandela e se assombram com sua postura depois de todo sofrimento que lhe foi imposto pelo regime segregacionista
O final é óbvio (até porque real): a vitória na final da Copa do Mundo. O filme, pelo lado esportivo, lembra muito a história da Alemanha e sua relação com o futebol. A Alemanha venceu, em casa, duas Copas do Mundo de futebol muito significativas: a de 1954, menos de dez anos depois do fim da segunda guerra, unindo novamente um país em frangalhos e restaurando um pouco do orgulho de um país que estava então moralmente destroçado pelas atrocidades por eles cometidas na Guerra; a de 1990, na Itália, no ano subseqüente à reunificação alemã, com a queda do Muro de Berlim, reunindo em um mesmo objetivo as duas Alemanhas que estavam separadas desde o final da Segunda Guerra.
Nota IMDB - 7,4. Talvez um pouco menos. O filme vale muito mais pela postura de Mandela do que pelo enredo em si mesmo.

MONSTROS (FREAKS), 1932, de TOD BROWNING - 21.09.2011

Já é a segunda vez que ocorre, que o filme do TCM não começa no momento exato previsto na SKY, e perde-se o começo do filme, a que só consegui assistir no google vídeos - que tem ótimos filmes, por sinal. Há um prólogo por escrito em que se explica que as pessoas com deficiências era consideradas como de má sorte ou representações do mal, e muitos males e problemas durante a história foram atribuídos aos "freaks", e que Golias, Calaban, Kaiser Wilhelm, Glocester foram anormais.
Que essas pessoas eram deixadas à morte, ou, se sobreviventes motivo de diversão e escárnio para os nobres, emboras pessoas com sentimentos e pensamentos sãos. Estes "freaks" criaram entre si um código moral para se proteger do escárnio das outras pessoas, e o mal feito a um deles a todos agredia, e a  felicidade de um a todos aproveitava.
O filme inicia, e o apresentador do show ou de feira de variedades (sideshow, em inglês) faz a advertência e apresenta à plateia um monstro - que inicialmente não vemos (só o veremos no fim) - que diz já ter sido uma belíssima mulher, uma trapezista conhecida como o pavão dos ares, e então, sem que os espectadores a vejam, sentimos qual ruim é seu estado pela reação assustada dos que a ela são apresentados.
A história em si começa com a trapezista  Cleopatra (Olga Baclanova) fazendo seu numero e sendo admirada pelo anão alemão Hans (até então enamorado da anã Frieda). Cleopatra utiliza-se de seu charme para "seduzir" Hans, para ganhar presentes e algum dinheiro.
Parênteses: há uma cena em que Madame Tetralini - a tutora dos anormais - leva os seus "freaks", alguns débeis mentais, o homem que só tem o torso, o homem apenas com a parte superior do corpo e que se locomove com os braços, anões para um passeio no parque que é impactante.
Pois bem, Hans que casaria com a anã Frieda cai no engodo de Cleópatra (parece-me que qualquer coincidência não terá sido mera semelhança), principalmente após esta e Hércules - seu amante - descobrirem que Hans é herdeiro de uma grande fortuna. Cleo resolve casar-se com Hans, e como é sabido que os anões têm saúde frágil, planeja matá-lo e herdar sua fortuna.
No jantar pós-casamento Cleopatra, depois de beber em companhia de todos os freaks, em que estes cantam a ela que agora ele é uma deles, tem um acesso de raiva, xinga os "monstros", rejeita ser um deles, beija Hércules. Durante o jantar Hans já recebera a primeira dose de veneno em sua bebida, e cai adoentado.
Hans só vai descobrir o plano quando já casado e à beira da morte - quando passa a não mais ingerir o remédio misturado com veneno que lhe é ministrado.
Descoberto o plano, os freaks então resolvem vingar-se de Cleo - dentro daquela lógica inicialmente explanada de que tudo que fizeres a um de nós o fazes a todos - e então a transformam no monstro não mostrado no início - uma mistura de pessoa sem braços e sem pernas misturado com uma ave, uma galinha ou coisa que o valha.
Após essa cena há ainda um epílogo em que Hans, gozando de sua fortuna vive solitário em uma mansão e Frieda e os dois amigos "normais" Phroso, o palhaço, e Venus, que eram os únicos integrantes do circo que não gozavam dos anormais, ali aparecem para arranjarem uma reconciliação entre os dois anões (midgets, palavra inglesa que eu acho espetacular).

É um filme bastante impressionante. Uma das coisas mais impressionantes que vi nos últimos tempos. O filme nos expõe a nossos próprios preconceitos de uma forma pungente. Enquanto via o filme, várias vezes dei pausa na projeção para pesquisar na internet sobre as pessoas reais que encarnaram na tela a sua personalidade real. Não há, aqui, em verdade, personagens, mas "freaks", pessoas verdadeiras consideradas abjetas, estranhas demais, que participaram do filme, representando um pouco, vivendo sua realidade de atrações de circo, principalmente. As suas histórias reais são ainda muito mais impressionantes do que o filme. Vários desses anormais morreram idosos. O half-boy (Johny Eck) morreu com 83 anos; Schlitze, a pinhead (pessoa microcéfala, com uma deformidade craniana gravíssima, e com volumetria cerebral muito pequena, logo, com desenvolvimento mental retardado, com baixo QI - no caso, Schlitze tinha idade mental de 4 anos), com mais de 60 - e na verdade era um homem; as gêmeas siamesas Hilton, também com mais de 60 e entre a morte de uma e outra mediou mais de uma semana (imaginem o que é isso, sua irmã siamesa morta e grudada ao seu corpo por mais de uma semana).
O filme vale a pena.

Nota IMDB - 7,9. Acho que vale bem mais. É um filme de 70 minutos espantoso. Quem viu, viu. Quem não viu, está perdendo.

A CEIA DOS ACUSADOS (THE THIN MAN - 1934), de W.S. Van DYKE - 20.09.2011

Essa filme de comédia-investigação com William Powell (Nick Charles) e Mirna Loy (Nora Charles) tem um ritmo ágil impressionante, diálogos ótimos, uma ótima interpretação do casal protagonista. Pena a cópia dublada apresentada no quase sempre bom TCM - que por exemplo torna quase impossível o reconhecimento do nome de Nunheim, personagem que se mostrará importante para o desenlace da história.
Tudo começa quando um inventor - Clyde Winant - tem um projeto secreto e diz ir a algum lugar que não pode revelar. Aparentemente fica por lá uns 3 meses, e no dia de natal, em que entra em contato com sua secretária, sua namorada/amante é morta.
Há vários complicadores. Sua amante morta Júlia o tinha roubado - 50 mil dólares. Sua ex-exposa e seu novo marido/gigolô Jorgensen vivem pedindo dinheiro a Clyde, e não gostavam de saber que ele gastava dinheiro com a amante. Há, por óbvio, a possível invenção que fosse objeto de cobiça de alguém.
Nick é detetive particular mas casou-se com Nora, herdeira de um rico industrial, e abandonou a profissão de investigador, devotando-se, a como ele mesmo disse, ironicamente, a cuidar para sua esposa não gastar o dinheiro que o levou a casar com ela. Bebidas e festas fazem o cotidiano do casal - é raríssimo um filme em que os protagonistas ou estejam bebendo ou de ressaca, como é comum  - todo o tempo - nesta obra.
Com o crime, Nora fica interessada em ver como seu marido trabalha, e por diversão o incentiva a aceitar o caso - com o que ele reluta inicialmente, mas todos os envolvidos vivem a lhe procurar.
Há várias personagens (suspeitas) envolvidas: toda a família Wynant (a ex-esposa Mimi, os filhos Dorothy e Gilbert); o advogado MacCaulay; o guarda-livros Tanner; o gigolô de Mimi, Jorgensen; Nunheim, pequeno bandido e informante da polícia - e possivelmente envolvido com Júlia; Morelli, bandidinho e pretenso amante de Julia, entre outros.
As pistas são desencontradas, e Nick avança na investigação, perseguindo o dinheiro de Wynant - muita gente vive às suas custas, descobrindo que Clyde já está morto e seu corpo enterrado em seu próprio laboratório, descobrindo os relacionamentos de Julia, etc.
Quando imagina que está prestes a descobrir o assassino, convida todos os suspeitos para um jantar - a tal Ceia dos Acusados (o título em português é ótimo, melhor que The Thin Man original), em que ele expõe seu raciocínio com muito charme e desestabilizando os presentes à mesa chega à solução do mistério, explicando o romance de Júlia com MacCauley, a descoberta desse romance por Nunheim e a chantagem deste para não revelar o caso - razão pela qual foi morto, as falsas cartas remetidas por Wynant dando notícia de que ainda estaria vivo, o esquema entabulado por MacCauley para continuar administrando e desviando o dinheiro do morto, para si e para dá-lo a Julia e a Mimi. Por essas linhas, já dá para saber quem é o assassino.
Mais do que o desfecho, o desenrolar do filme, com soberba química entre Powell e Mirna Loy, sua vida rica e descompromissada, sempre em festas e rodeados de amigos, com muito humor e diálogos afiados fazem deste filme uma grande opção para divertimento.
Li críticas por aí que o roteiro é quase impossível de seguir - realmente a trama se complica, ainda mais com a má dublagem do TCM, tive que voltar o filme para compreender alguns detalhes (e nem todos são compreensíveis), e além disso um elogio a Powell, que seria para o cinema falado o que Chaplin ou Keaton seria para o cinema mudo. Atuação soberba, realmente, de um ator que até agora nunca tinha visto em atuação.
Nota IMDB - 8,1. Merecido.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O FUGITIVO (1932), de MARVIN LEROY - 02.09.2011

Um filme de 1932, com Paul Muni, embora com estilo de atuação ainda muito teatral, afinal só fazia 5 anos do lançamento de "O cantor de jazz", é um filme bastante bom.

Paul Muni é James Allen, um herói da primeira guerra mundial que volta para sua terra natal mas não quer mais aquela vida. Ele volta, sua mãe e seu irmão padre querem que ele volte à mesma vida de sempre, inclusive lhe sendo assegurado o emprego que detinha antes da guerra, mas ele não quer mais aquilo. Até aceita o emprego por pouco tempo, mas logo depois pede demissão, e quer fazer coisas novas, trabalhar na construção civil.

Munido apenas de seu sonho, perambula de cidade em cidade, obtendo e perdendo empregos, por diversas razões - corte de gastos, crise, não devendo ser esquecido que se tratava dos anos da grande depressão econômica americana.
Ele termina por virar um mendigo, passando fome. Quando ele é convidado por um desconhecido para mendigar um sanduíche num lanchonete, ele é envolvido num assalto sem tanto querer, pois esse seu colega é que faz o roubo e manda que Allen pegue o dinheiro do caixa. Nessa hora chega a polícia, mata o assaltante e prende Allen, que não tem como se defender sendo condenado à longa pena de trabalhos forçados em uma prisão chain gang - os presos trabalham acorrentados, logo, a turma, a gangue da corrente - da Geórgia.
Ele consegue fugir, e, pouco a pouco, se estabelece em Chicago, com seu nome alterado para Allen James, na construção civil, passando de mero servente de obras a um dos mais respeitados industriais da área, por seu mérito e trabalho.
Ele dá o azar de casar com uma aventureira, que o chantageia para que continue casado provendo-lhe uma boa vida, sob pena de delatá-lo.
Allen, no entanto, está enamorado de Helen, e quer o divórcio de Marie para poder viver com Helen. Em razão disso rompe com sua esposa, e esta  esta cumpre a promessa e o entrega à polícia. Allen, então, é novamente preso, e extraditado para a Geórgia, sob promessa de cumprir uma pena de 3 meses e receber indulto. Negado, lhe prometem que em um ano será solto, e novamente tem seu benefício negado.
Ele então arranja nova fuga, com o auxílio de seu companheiro Bomber Wells, que é morto na fuga.
Passa-se um ano em que Allen embora procurado não é mais visto, por ninguém, quando então se dá o desfecho impactante do filme, em que Allen procura Helen, apenas para se despedir, para sempre. Enquanto ele se retira, ela pergunta se ele precisa de algo, de dinheiro. Ela pergunta como ele vive agora, e a resposta cruel: I steal.
Filmaço, desses que tem a qualidade de crescer em nossa mente com o tempo. Uma crítica severa aos sistemas judiciais e prisionais - que ressocialização que nada - à violência do sistema, à degradação do ser humano - à violência por si só (pois Allen - que nunca fora culpado, mas ainda que fosse, já tinha se adaptado à sociedade e galgado posição de destaque), pouco importando a justiça.
Nota IMDB - 8,1. Daí pra mais.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O DELATOR (1935), de JOHN FORD - 14.09.2011

Este filme de mais de 75 anos tem obviamente os defeitos que já apontei em outro ponto, de ser dos primeiros anos do cinema falado, o que a meu ver traz ainda uma interpretação muito teatral, até mesmo a cena do julgamento de Mulligan e depois de Gypo parecem estar sendo filmadas num tablado.

Na história, Gypo Nolan, um irlandês meio estúpido, porém muito forte fisicamente, vaga pelas ruas, sem dinheiro algum há seis meses, tendo sido recusado para ser membro do IRA pois não teve coragem de cumprir uma ordem da direção do exército revolucionário. Sua namorada, Katie, na mesma condição de penúria, passou a se prostituir.
Nesse quadro, ele avista um aviso de recompensa de 20 libras por qualquer informação que leve a seu amigo Frankie McPhillip, integrante do IRA procurado por assassinato. Ao mesmo tempo, sua namorada sonha com a felicidade em uma migração para os EUA, com passagens custando 10 libras.
Premido pela fome, pelo amor - e esperança de uma nova vida na América, pela necessidade, e com o juízo embotado por alguma bebida, Gypo delata seu amigo, que é morto pela polícia dentro da casa de sua mãe, e nosso herói de poucas idéias recebe a sua recompensa. Os integrantes do IRA logo suspeitam que houve um delator, e dizem a Gypo que ele pode voltar ao grupo dês que descubra quem foi o informante, e este não hesita em apontar Mulligan, um alfaiate como o autor da denúncia.

Gypo então inicia uma peregrinação noturna alucinada, onde vai a bares, tabernas, boates, casa de prostituição, desfazendo-se do dinheiro não se sabe se por remorso, por embriaguez, ou por bondade, eis que paga comida a muitos num refeitório "fish and chips", dá esmola a um cego, gasta com bebida na zona, dá dinheiro a uma prostituta que se parece - na imaginação dele - com Katie, paga as dívidas daquela prostituta com a dona do bordel, é conduzido por um farrista mau caráter, e por fim, dá o resto do dinheiro - naquela hora apenas 5 libras, à própria Katie. Li uma crítica sobre o filme que aponta para a frase mostrada no início do filme, de que Judas, enojado com o próprio ato, jogou ao chão as 30 moedas que recebeu por trair Jesus, querendo dar a entender que a conduta de Gypo com a grana - e com a culpa - foi semelhante a de Judas. Boa sacada.
Arrependimento, euforia com o dinheiro, atos de bondade, e mau-caratismo se misturam sucessivamente na conduta de Gypo, que é ao final, desmascarado em sua invectiva contra Mulligan e levado a confessar perante um tribunal revolucionário que foi ele o delator, mas sem saber explicar exatamente porque assim agiu, alternando suas explicações entre amor, bebida, necessidade, etc.
Antes de ser executado - os representantes do IRA justificam a execução sob pena de Gypo colocar em risco toda a resistência ao domínio inglês sobre a Irlanda -  consegue fugir. Ele se refugia na casa de Katie, pergunta-lhe onde estão as 20 libras que lhe dera (que como dito, não eram mais 20), ela se compadece e vê que ele não sabe exatamente quais os seus atos nem as reais conseqüências deles.
Katie tenta interceder por Gypo junto a Gallagher, dirigente do partido, conta-lhe onde Gypo está, mas este se mostra irredutível pelas razões já expostas. Tenta ainda interceder junto à namorada de Gallagher, e coincidentemente irmã de Frankie McPhillip - o traído - até recebendo o perdão desta e a aquiescência pela não punição (há alguns momentos no filme de exortação ao fim da violência praticada pelo IRA), mas Gallagher não cede.
Gypo é alvejado com quatro tiros, mas consegue rumar até a igreja - aparentemente esperando apenas o perdão divino - o IRA é católico, mas lá encontra a mãe de Frankie, que o perdoa, com base nas famosas palavras de Jesus aos ladrões na cruz - Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem.
O intérprete de Gypo Nolan, Victor Maclaglen ganhou o Oscar de melhor ator pelo papel, em interpretação que eu, particularmente, considero um pouco aborrecida, basicamente um bêbado com momentos de lucidez, arrependimento, amor, mas um bêbado.
Um filme sobre o perdão - humano e divino - a culpa, o arrependimento, o peso das escolhas, e as conseqüências advindas de cada ato humano. Um pouco raso, mas tudo bem.
Há alguns momentos em que a fotografia é muito bonita, especialmente nas cenas noturnas em que a luz que vem de dentro dos edifícios ilumina o nevoeiro. É o mais marcante do filme, penso eu. 
 Nota IMDB: 7,6. Não achei tudo isso. Daria um 6 ou 6,5.

sábado, 10 de setembro de 2011

A LOJA DA ESQUINA (1940), de ERNST LUBISTSCH - 07.09.2011

Uma simpática comédia romântica protagonizada por James Stewart, ainda jovem, aos 32 anos e a desconhecida, para mim, Margaret Sullavan, baseada na peça teatral de um húngaro, razão pela qual toda a ação se passa em Budapeste. Essa mesma peça serviu como base para o filme You've got mail, com Tom Hanks e Meg Ryan (evidentemente com grande queda de qualidade).
Stewart (Alfred Kralik) é o chefe de vendas da loja de variedades de Matuschek, e vê Sullavan (Klara Novak) ser contratada, contra sua vontade, pois acha que já há vendedores suficientes. Logo se cria uma antipatia natural entre os dois no ambiente de trabalho.
Kralik tem vontade de conhecer alguém, e ele se corresponde anonimamente com uma moça, assim como Klara, e ambos consideram seus correspondentes desconhecidos, sem saber que quem se odeia no ambiente de trabalho está pelo outro apaixonado nas correspondências.

Há alguns diálogos bem afiados, personagens secundárias bem construídas, como o Matuschek, o vendedor Pirovitch, amigo-confidente de Kralik e destinatário dos esporros de Matuschek, além do office-boy Pepi, e pequenas histórias incidentais bem amarradas (como o amante e os presentes, a escolha da carteira como presente de Klara para Kralik, manipulada por este sem que ela saiba, as frustrações de Pirovitch, as despesas de um solteiro e um casado)

Quando os correspondentes marcam algum encontro, sempre há contratempos para que ele acabe não se realizando. Certo dia Kralik é demitido, pois Matuschek desconfia que sua esposa o esteja traindo com Kralik (depois se verá que era com outro funcionário), e então vai ao lugar do encontro quando descobre, com o auxílio de Pirovitch que sua correspondente é ninguém menos do que Klara. Ele entra no restaurante, conversa com Klara, mas, desapontado com o "seu amor", não se identifica como o remetente das cartas, ou seja, para ela o seu amor anônimo lhe deu o bolo.

Nessa mesma noite a reviravolta no filme, pois Matuschek tenta o suicídio ao descobrir que Vadas era o amante de sua mulher, mas é salvo pelo boy Pepi. Então, ele decide recontratar Kralik, promovendo a seu substituto na gerência da loja, Pepi vira vendedor em lugar do demitido Vadas, mas Klara está tão frustrada com não comparecimento de seu correspondente que cai acamada.
Daí por diante, Kralik começa vagarosamente a mudar seus sentimentos e sua postura para com Klara. Primeiro vai a sua casa e com a artimanha de fazê-la receber uma carta do correspondente postal dizendo que não falou com ela no restaurante porque a viu conversando com alguém - exatamente Kralik - e marca novo encontro.
Depois, já na loja, passa tratá-la melhor, e no dia do encontro, depois de algum jogo de sedução que em tese seria improdutivo, e após muito importunar Klara, dizendo-lhe que conhecera o seu amigo postal, e que este era velho, gordo, pobre, revela o número da caixa postal em que recebia a correspondência, deixando-a descobrir que era ele o remetente das cartas de amor. E foram felizes para sempre...hehe.
Nota IMDB - 8,1. Não é pra tudo isso, embora um filme bastante agradável. Nota 7.

O LUTADOR DE RUA (HARD TIMES - 1975), de WALTER HILL - 09.09.2011

Charles Bronson interpreta Cheney, um solitário sem passado (não há como saber se por exemplo ele não fora um lutador profissional) que chega a Nova Orleans com 6 dólares no bolso, em plena grande depressão, e por acaso descobre brigas de rua em que há apostas de dinheiro, sendo James Coburn (Speed) um dos "empresários" dessas lutas.
Cheney vai ao encontro de Speed para propor uma parceria, pois ele precisa de algum dinheiro - uma certa quantia e não mais lutará - e preencher algumas entrelinhas - que nunca vai se saber quais são. Na primeira luta ele vence o adversário com apenas um soco.
Speed é um viciado em jogo, e portanto vive sempre sem dinheiro, tem problemas com agiotas e a máfia de New Orleans, e para bancar a luta valiosa de seu pupilo Cheney contra o lutador do ricaço do lugar, ele precisa de grana - 3 mil dólares, que consegue através de um empréstimo e também de uma luta longe de Nova Orleans, ainda que para que eles recebessem a bolsa tivessem que cobrá-la a força, pois num primeiro momento, longe de sua área, se vêem em maus lençóis.
Com esse dinheiro eles fazem a luta contra Jim "skinhead" Henry, o então melhor lutador da cidade, agenciado pelo tal ricaço e poderoso (Gandil), e Charles Bronson vence. Gandil não se dá por vencido e não quer não ter sob seu domínio o melhor lutador, e tenta contratar Bronson por uma certa quantia e em parceria com Speed, mas Cheney rejeita o negócio - quer fazer as coisas de seu jeito. Por isso, como Speed precisa de dinheiro (perdeu no jogo o que ganhou com as lutas e não pagou o empréstimo, ainda devendo aos mafiosos), ele e Cheney se desentendem, e as ameaças a Speed aumentam.
Gandil, então, faz um arranjo com a máfia, garante o empréstimo de Speed dês que Cheney volte a lutar contra um contratado de Gandil (que também só luta a dinheiro), trazido especialmente de Chicago para tal fim, enquanto Speed é mantido refém, para que Cheney se convença que precisa lutar, apesar de ter rompido com seu antigo parceiro. 
A aposta dessa luta será Gandil x Cheney, pois como Speed perdeu seu dinheiro, Cheney é obrigado, para lutar, a colocar em jogo o que conquistou nas brigas anteriores, pondo em risco o seu plano de só lutar até conseguir o necessário. Mas ele vence, fica com seu dinheiro e o dobra, esse dinheiro da vitória a Speed e seu assistente, pois o que ele precisava ele já tinha. E assim, vai embora de Nova Orleans, tendo cumprido sua missão - ao menos em parte, o dinheiro - pois as entrelinhas, talvez a tentativa de um relacionamento que não dá certo porque ele não quer ter nenhuma amarra, isso ele não conquista.
Acho que a própria chamada do DVD, aí em cima, de que "naqueles dias [da grande depressão], as palavras não dizem muita coisa". É um filme com o estilo de Charles Bronson, poucas palavras, mas olhares e muita ação. É um tempo de dureza, e as coisas só são conquistadas por quem é duro na queda, ganha na porrada, contra uma situação dificílima - economia quebrada, o lutador mais bem pago, etc.
Apenas para constar, Walter Hill dirigiu os 48 Horas, com Eddie Murphy, A Encruzilhada e especialmente The Warriors (Os selvagens da Noite) - de que eu gosto muito.
Nota IMDB - 7,2. Não vi tudo isso (Inácio Araújo falou bem do filme). Daria um 6.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

SERPICO (1973), de SIDNEY LUMET - 02.09.2011

Frank Serpico, um policial recém ingresso na força de Nova Iorque (vivido como se pode ver por Al Pacino), logo percebe que onde quer que vá - e durante o filme ele passa por quatro ou cinco delegacias diferentes, os policiais são corruptos, e recebem dinheiro e várias outras formas de vantagens para "dar proteção" a comerciantes, o que já consistia uma prática por demais usual, e não fazer parte desse esquema o deixa isolado e em perigo.
Muitos tentam demovê-lo dessa conduta honesta, pois ela coloca em risco os próprios policias corrompíveis, que ficam com medo de um haver um tira honesto no meio deles.
Essa postura afrontosa de Serpico o leva a mudar de delegacia, quase sempre a seu pedido, primeiro indo para o setor de identificação criminal - onde em tese não haveria corrupção, depois passa a trabalhar como policial à paisana, a P2 brasileira, em que em tese não precisaria estar tão ligado à burocracia policial e mais afastados dos esquemas, mas os episódios de corrupção não diminuem, nem a pressão que os demais exercem sobre ele para que ele aceite dinheiro.
Serpico é um policial pouco ortodoxo no seu modo de ser, é apaixonado, é uma pessoa sedutora, vive com cabelos compridos, barba espessa, brinco, ama ballet, tem namoradas e nas horas de folga vive como se não fosse um policial, mas no cumprimento de seu mister é inflexível.
Ele tenta desbaratar a corrupção por dentro da instituição, primeiro comunicando a seus superiores sobre o que vem ocorrendo, e estes lhe prometendo providências, mas nada realmente é feito, por anos, e a pressão sobre Serpico aumentando (bem como sua paranóia persecutória, de que todos estavam a persegui-lo). Tenta contato com os níveis mais altos da hierarquia policial, com o gabinete do prefeito, mas nada dá resultados, sempre com um antigo colega de academia, que rapidamente se tornou detetive (por influência política).
Somente quando vazam a história para o New York Times é que as coisas começam a acontecer, pois é instaurada uma comissão investigativa que ao final vai redundar em uma grande limpeza na polícia novaiorquina, mas durante as investigações secretas Serpico continua trabalhando, e estas se arrastam porque as provas não são contundentes (ao menos para os investigadores), que gostariam que Serpico tivesse consigo um grampo para confirmar o eventual testemunho, o que é impossível dada a desconfiança de seus colegas. Frank inclusive reluta por muito tempo em testemunhar, e aparentemente somente após o atentado abaixo narrado é que decide contar tudo à comissão.
Nesse ínterim, para Serpico, as coisas não ficaram tão fáceis assim (sobre a verdadeira história de Frank Serpico LINK AQUI, no NYT), e quando ele está na delegacia de narcóticos - em que os subornos são muito mais altos e portanto a honestidade traz grandes prejuízos aos colegas corruptos - em uma batida contra um traficante de heroína, ele é deixado na mão por seus "colegas" - um deles F. Murray Abraham (o Salieri em Amadeus, ganhador do Oscar de melhor ator), que na abordagem ao traficante, em um apartamento, fica preso na porta, lutando contra o traficante, e seus colegas que deveriam auxiliá-lo no arrombamento nada fazem, deixando Serpico levar um tiro na cara, que não o mata, mas o deixa surdo de um ouvido e com um problema na perna.
No filme ele é socorrido pelos policiais, mas na vida real estes sequer se dignaram a ajudá-lo, e um vizinho idoso e uma viatura que não o reconheceu - pois estava à paisana, socorreram-no, levando ao hospital, em que receberá o distintivo prateado, tornando-se detetive (mas sem efetivamente voltar a trabalhar).
Serpico migrará para a Europa, onde ficará por muitos anos.
Nota IMDB - 7,8. Acho que daria um pouco menos, um 7. Um filme que deve ter tido muito maior repercussão quando do lançamento, dois anos após os acontecimentos.

OS INOCENTES (1961), de JACK CLAYTON - 23.08.2011 e revisão em 29.08.2011

O filme já começa muito bem, com uma tela negra e uma menina cantando uma música infantilmente, mas a música nada tem de infantil, fala na perda de um amor, choro sob um salgueiro, coração partido e morte.
Corte, e aparecem as mãos de Deborah Kerr (que vive a tutora Miss Gidens) contratada para cuidar de dois órfãos, as crianças Flora e Miles, em uma propriedade rural na Inglaterra, rezando, dizendo que só o que queria era ajudar ou salvar as crianças, porque ela as ama.
As instruções expressas do tio que ficou com a guarda dos menores são para que ela resolva tudo que acontecer, e que em nenhuma hipótese ela o chame, pois ele não quer ter de cuidar dos órfãos, quer continuar com sua vida de bon vivant em Londres sem ter que se preocupar com as crianças.
Chegando à propriedade rural, Miss Gidens se depara com um lugar idílico, um paraíso, numa mansão enorme, ficando absolutamente encantada. Ela ainda não percebe que há algo estranho, mas aparentemente há uma voz não identificada chamando por Flora, já na chegada.
Miles, a esta altura, está no colégio interno. Flora diz que logo ele estará de volta, o que seria impossível (só retornaria nas férias), mas logo depois recebem uma carta explicando que Miles foi expulso  do colégio, por ser má influência, por corromper aos demais.
Nos primeiros tempos de convivência, as crianças se mostram muito amáveis, obedientes, amorosas, que adoram viver na companhia de Miss Giddens.
Aos poucos, essa harmoniosa convivência vai ruindo, tanto ao se descobrir com morreram os anteriores trabalhadores da Mansão (Peter Quint e Miss Jessel - queda da escada e suicídio, e considerado que eram amantes, aquele um homem rústico, esta uma uma mulher bastante sensível dominada por aquele), quanto em razão do próprio comportamento dos menores e desconfiança da tutora. Ademais, ao que tudo indica, as crianças estavam sujeitas explicitamente ao relacionamento dos dois, e aparentemente, inclusive assistiam às relações sexuais dos criados.

Deborah Kerr está muito bem como a, ao mesmo tempo assustada mas corajosa e investigativa tutora, e sua cara de espanto não é caricata, mas realmente expressa o terror que vai sentindo.
As crianças, principalmente o menino, estão ótimos.
Há cenas realmente assustadoras, desse terror puramente psicológico, sem violência, sem nada, só sugestão, e muito bem feita.
O relacionamento entre a tutora e as crianças vai degringolando por variadas razões, quer porque a tutora começa a agir diferentemente, quer porque o comportamento das crianças vai piorando, com Flora e Miles fazendo joguinhos e passando a agir estranhamente.
Quando Miss Gidens começa a ver os fantasmas - primeiro de Peter Quint, sobre a torre e depois refletido na vidraça; depois de Miss Jessel, atravessando o corredor e também do outro lado do lago, o terror se intensifica, e Miss Gidens chega à conclusão de que os ex-funcionários da casa precisam, para poder continuar com seu amor, voltar à vida, especificamente tomando os corpos de Flora e Miles em possessão, e que esse momento está cada vez mais próximo, dada a aparição dos fantasmas.
Ela resolve partir para Londres para dar parte dos acontecimentos ao responsável legal pelas crianças, mas muda de ideia e resolve ficar com Miles na fazendo, enquanto Flora e a empregada Mrs. Grose rumam para Londres.
Giddens enfrenta Miles, para fazê-lo confessar que vê os espíritos, esse sempre nega, mas instado a dizer o nome de alguém diz o de Peter Quint e imediatamente morre. A razão da morte, evidentemente, não resta explicada, se por muita pressão psicológica, por medo, por ter-se desfeito a possessão.
Passada essa cena, Giddens põe-se a rezar, voltando exatamente para a cena em que as mãos de Deborah Kerr estão juntas em reza, lá do início do filme, em que ela diz amar as crianças, e só queria protegê-las.

O filme é, desta forma, em sua conclusão, completamente aberto. Não é possível saber se realmente há assombrações do ex-caseiro e da ex-tutora (por exemplo Flora canta a música lá do início do filme como se para chamar alguém - e a música tem muito de uma música de amor adulto - e de repente, ela começa a sorrir, como se a pessoa chamada fosse vista, embora as crianças sempre afirmem que não vêem nenhuma assombração);  se as crianças é que são apenas más e com o auxílio da empregada têm um plano para aterrorizar quem se intrometa naquela casa, para que nada mude naquela vida idílica,  ou se Miss Gidens é que vai enlouquecendo paranoicamente com o passar do tempo, afetada pelo comportamento das crianças, pela atmosfera do enorme prédio, pelo isolamento do campo.
Há a interpretação - não minha, pois não tem tal cabedal de conhecimento - de que os fantasmas eram meramente imaginados pela governanta, pois reflexo da repressão dos costumes e da vida sexual da era vitoriana, projetando "nos inocentes" as suas perversões.
Preciso ler o livro, que recentemente adquiri, para ver se chego a uma conclusão. Se chegar, altero este post.

Nota IMDB - 7,9. Se não fosse o final em aberto - com três ou quatro possibilidades diferentes - que incomoda um pouco alguém como eu, que por vezes precisa de um desfecho concreto para a história, a nota seria ainda maior. Mas o 7,9 é merecido. Ótimo filme, ao qual "Os outros", de Shyamalan, sem dúvida deve muito.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O TÚMULO VAZIO (1945), de ROBERT WISE - 04.09.2011

Neste filme em que Bela Lugosi faz uma ponta, Boris Karloff é Gray, um taxista (de carruagem, por óbvio) em Edimburgo, em 1831. Nas horas vagas, ele arranja corpos para seu "amigo", Dr. Wolfe MacFarlane - que é a cara de um advogado aqui da minha cidade, Dr. Virmond Price, um médico que dirige uma escola de medicina, e precisa de cadáveres para ensinar a seus alunos sobre anatomia.
Gray arranja os corpos principalmente desenterrando cadáveres recentes (body snatcher), e recebendo uma paga do médico para isso.
Wolfe tem, contudo, uma dívida para com Gray, porque este o inocentou - ao mentir - em um processo judicial anterior sobre casos semelhantes, e embora tente se livrar de Gray e do passado, não consegue. Gray sempre está ao redor, e Wolfe tem esse segredo a lhe perseguir.
As coisas se complicam quando o estudante de medicina e assistente de Wolfe, Donald Fetter -  descobre que Gray matou  - e não "apenas" desenterrou uma das pessoas cujo corpo lhes é entregue, e ao revelar tal fato a Wolfe (não que esse já não pudesse saber), o ajudante Joseph, um silencioso e soturno (além de bisbilhoteiro) Bela Lugosi - que me pareceu bastante envelhecido, ouve essa conversa.
Joseph então vai até Gray para chantageá-lo, mas ali é morto, e seu corpo é entregue por Gray na clínica do médico, o que poderia complicar a situação do doutor, eis que um seu empregado apareceu morto - evidentemente de maneira inexplicável.
Wolfe então vai até a casa do personagem vivido por Karloff para dele se livrar, e lhe oferece dinheiro para que este o deixe só, e se mude para a França. Gray recusa pois somente com essa relação de um homem humilde, um taxista próximo a um médico conceituado ele se sente alguém. Wolfe então mata Gray, e tenciona usá-lo como um corpo para dissecação em suas aulas, mas isto não fica demonstrado se efetivamente ocorre.
Wolfe resolve que venderá a a carruagem de Gray para se livrar das evidências, e vai a um subúrbio para concretizar o negócio. Lá, Fetter o encontra, e Wolfe, embora todo o distúrbio, diz ainda precisar de corpos para suas aulas, e resolve ele mesmo escavar um corpo recentemente inumado.
Retira o corpo de uma mulher da terra e ao levá-lo para a cidade, paranóico ou assustado, esse morto lhe parece ser o de Gray (numa cena muito bem realizada, com luzes interessantes e Karloff muito pálido e iluminado pelos raios de uma tempestade), o que o faz perder o controle da carruagem e cair em um despenhadeiro para a morte.
Incidentalmente, Wolfe é um cirurgião renomado, mas que tem medo de operar, mas, mesmo assim, é convencido por Fetter a salvar uma menina paraplégica, com uma técnica inovadora.

Não sei se há coisas no filme além da história contada. Talvez que ninguém tem apenas um lado bom ou ruim - o mesmo médico que compra defuntos ilegalmente ou burlou o sistema legal pedindo a alguém que burlasse o seu testemunho salva uma menina pobre e paraplégica; ou que as amizades - ou tudo o que se faz -  têm conseqüências, e Wolfe não podia se desfazer de Gray a seu bel-prazer, pois dele se utilizara, obrigando-se a fazer negócios de compra de cadáveres; ou o dilema moral irresolvido de Fetter, aluno pobre e aprendiz de Wolfe, que se submete às ilegalidades de seu professsor, malgrado veja onde está o erro; ou a amante/namorada de Wolfe, que embora sua companheira finge-se de empregada, para que desfrute da posição social do médico famoso, mas não dê as caras, ao passo que este tem sua reputação mas não revela à sociedade a sua união com uma simplória. Tudo isto talvez seja relevante, e foram coisas sobre a quais pensei no dia seguinte à sessão do filme. Não sei se vou longe demais, e o filme é só uma ficção de terror. Mas esses pensamentos fizeram o filme crescer na minha consideração muito rapidamente.


Apenas para constar, Robert Wise fez filmes como a Noviça Rebelde, West Side Story, mostrando que dominava os mais díspares gêneros do cinema.
Nota IMDB - 7,4. Dou um 6, no máximo. Repensando - no dia seguinte, conforme dois parágrafos acima, um pouco mais, talvez um 7.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

SHERLOCK HOLMES E A ARMA SECRETA (1943), de ROY WILLIAM NEILL, em 20/21.08.2011

Tal qual em "A Mulher de Verde", que já comentei neste blog, este filme do detetive inglês tem Basil Rathbone e Nigel Bruce nos papéis de Holmes e Watson.

Holmes e Watson precisam proteger um cientista suíço, que construiu uma bomba aparentemente importante para o desenrolar da Segunda Guerra - me pareceu que a invenção era um sistema de precisão para o lançamento das bombas - evitando que esse apetrecho caísse na mão de nazistas.
Sherlock consegue tirar o cientista Franz Tobel da Suíça, levando-o à Inglaterra, após se disfarçar de agente alemão, enganando os integrantes da Gestapo.
Após chegarem ao 221-B de Baker Street, Tobel desaparece para providenciar algumas coisas. Como ele teme que sua bomba caia em mãos erradas, ele a divide em quatro partes, dando uma parte para cada um de seus amigos cientistas suíços radicados na Alemanha, evitando que somente a sua apreensão fosse causa da descoberta de toda a bomba. Também vai até a casa de sua namorada que conhecera durante temporada nos Estados Unidos, e lá deixa uma mensagem cifrada para Holmes com o nome dos quatro destinatários da bomba, em caso de ser ele capturado.
Já nessa primeira incursão ele sofre uma tentativa de seqüestro, da qual se livra por pouco.
Mas, logo depois, após se negar a entregar sua invenção inclusive ao governo britânico - o receio de que mesmo ali o segredo em um só lugar pudesse ser revelado - realmente é capturado pelo Professor Moriarty, que é quem pretende vender o artefato à Alemanha, quando começa o embate entre Holmes e Moriarty.
Na verdade o embate de gênios parece uma programa de "pegadinhas do Mallandro", um dizendo que é mais esperto que o outro, e utilizando exemplos ridículos para prová-lo, como por exemplo eles discutem como um mataria o outro, pois um tiro seria indigno de tais inteligências.
Ao final, no esconderijo de Moriarty, descoberto por uma pista tipo João e Maria, Holmes e a Scotland Yard libertam Tobel e Holmes vence Moriarty com uma armadilha que este mesmo armara para terceiros em seu covil, mas que Holmes subverte para dar fim a Moriarty.
Há, então, um discurso pró-Inglaterra que soa hoje meio pueril, mas que parece ser adequado para durante a guerra, quando o filme foi feito.
Com uma história bobinha, um embate fraco entre Holmes e Moriarty, diálogos propagandísticos de tempo de guerra, esse filme diverte, mas não tanto quanto outros dessa série de Rathbone.
NOTA IMDB - 6,7. Acho que vale menos, um 5.